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Raridade

A arara
é uma ave rara
pois o homem não pára
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode voar pelo céu.

E se o homem não pára
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara.

 José Paulo
Paes
 Olha o bicho
(1989)
Sobre o autor

 

Você já parou pra pensar que a arara está se tornando um animal raro? Bem, o saudoso poeta e crítico José Paulo Paes não só pensou nisso como escreveu para as crianças este poema sobre essa avis rara. O que não impede que os adultos também se deliciem com ele.

Quem não tem como ir para o céu faz escarcéu.

Antes que alguém pergunte, adianto que escarcéu não tem nada que ver com céu, mas no poema eles se relacionam, sim, e passam mesmo a ser antônimos. Pois o escarcéu, a gritaria, a algazarra, da arara se deve ao fato de ela não ter liberdade, não ter o céu.

Você deve ter notado o delicioso jogo de palavras que José Paulo Paes arma com arara e rara. Um jogo de palavras que faz todo o sentido, já que a arara, de tanto ser caçada, está deixando de ser comum, de ser facilmente encontrável. E o poeta, com muita verve, muito humor, propõe uma nova grafia, mais condizente com a realidade: arrara.

No quinto verso da letra ocorre uma colocação pronominal bastante intrigante e que hoje em dia é quase tão rara quanto a arara. Isso está certo? Está, embora o mais natural seja o pronome se ligar por hífen ao infinitivo, dando apoio prosódico ao pronome e mais harmonia à frase. Observem que no verso anterior o poeta havia usado caçá-la, em vez de "a caçar", que seria de fato a opção mais natural. Mas, no caso, ficaria bem feio escrever "para pô-la", aproximando demais os ps e criando uma sonoridade muito esquisita ( "para pô-la" parece "ampola" ou algo assim). Sem dúvida, a opção pela anteposição do pronome oblíquo deu mais graça à frase. O mais raro aqui soa mais natural e menos estranho. Isso é para vocês verem como tudo depende do contexto.

José Paulo Paes
O poeta, crítico e tradutor José Paulo Paes nasceu em Taquaritinga (SP), no dia 22 de julho de 1926. Seu primeiro livro, O aluno, data de 1946. Mudou-se para São Paulo em 1949 e em 1960 deixa a indústria farmacêutica, onde trabalhava como químico. Passa a ser editor da Cultrix, onde ficaria até 1982. Em 1961 são publicados seus Poemas reunidos, contendo livros anteriores e as séries Novas cartas chilenas e Epigramas. Em 1981 lança o livro de poesia para crianças É isso ali. Em 1986 é publicado Um por todos, uma nova reunião de seus livros de poemas. Recebeu o prêmio Jabuti em 1997 (com o livro Um passarinho me contou) e em 1998 (pela tradução de Ascese, de Kazantzákis). Faleceu em 9 de outubro de 1998, vítima de edema pulmonar. Para saber mais sobre o poeta visite o site: http://www.paubrasil.com.br/paes/