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Rubem Braga
Biografia
Rubem Braga
(1913-1990) foi cronista, poeta, repórter, tradutor e crítico
de artes plásticas.
Escreveu grandes obras como: Casa do Braga, O Conde e o Passarinho
e Três Primitivos .
Tornou-se conhecido do grande público ao escrever crônicas
em jornais de grande circulação.
Na crônica
abaixo, Rubem Braga retrata um fato do cotidiano porém a maneira
de tratar o fato dá a essa crônica a característica
da universalidade que distingue o autor tornando-o um renovador da crônica
brasileira.
O
padeiro
Levanto
cedo, faço minhas abluções, ponho a chaleira no
fogo para fazer café e abro a porta do apartamento - mas não
encontro o pão costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter
lido alguma coisa nos jornais da véspera sobre a "greve
do pão dormido". De resto não é bem uma greve,
é um lock-out, greve dos patrões, que suspenderam
o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu café
da manhã com pão dormido conseguirão não
sei bem o que do governo.
Está bem. Tomo o meu café com pão dormido,
que não é tão ruim assim. E enquanto tomo café
vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quando
vinha deixar o pão à porta do apartamento ele apertava
a campainha, mas, para não incomodar os moradores, avisava gritando:
- Não é ninguém, é o padeiro!
Interroguei-o uma vez: como tivera a idéia de gritar aquilo?
"Então você não é ninguém?"
Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido.
Muitas vezes lhe acontecera bater a campainha de uma casa e ser atendido
por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha
lá de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera
dizer para dentro: "não é ninguém, não
senhora, é o padeiro". Assim ficara sabendo que não
era ninguém...
Ele me contou isso sem mágoa nenhuma, e se despediu ainda
sorrindo. Eu não quis detê-lo para explicar que estava
falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu
também, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela
madrugada que deixava a redação de jornal, quase sempre
depois de uma passagem pela oficina - e muitas vezes saía já
levando na mão um dos primeiros exemplares rodados, o jornal
ainda quentinho da máquina, como pão saído do forno.
Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E às vezes
me julgava importante porque no jornal que levava para casa, além
de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma crônica
ou artigo com o meu nome. O jornal e o pão estariam bem cedinho
na porta de cada lar; e dentro do meu coração eu recebi
a lição de humildade daquele homem entre todos útil
e entre todos alegre; "não é ninguém, é
o padeiro!"
E assobiava pelas escadas.
Texto extraído
do livro:
Para gostar de ler, Vol I -Crônicas . Carlos Drummond de
Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Rubem Braga. 12ª
Edição. Editora Ática . São Paulo.1989.
p.63 - 64.
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