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Olavo
Bilac
Biografia
Olavo Braz
Martins dos Guimarães Bilac (1865-1918) é dos fundadores
da Academia Brasileira de Letras e o autor de nosso Hino à Bandeira.
Foi jornalista e poeta. Fundou diversos jornais que duraram pouco tempo.
Sempre esteve muito envolvido com política, chegando a ser perseguido
e preso. É um dos principais representantes do Parnasianismo
brasileiro, merecendo destaque poesias como Via-Láctea, Profissão
de Fé e O caçador de esmeraldas.
Bilac escreveu, também, diversas crônicas. Precisou, entretanto,
simplificar bastante a linguagem rebuscada que costumava usar em seus
poemas e textos em prosa. Essa maleabilidade de Bilac é um bom
exemplo da adaptação que os escritores tinham (e ainda
têm) de fazer na hora de escrever crônicas a fim de tornar
o texto mais descontraído e simples.
Crônica
publicada, provavelmente, no jornal Gazeta de Notícias.*
Menor Perverso
É
este o título, com que aparece em todos os jornais a notícia
de um caso triste, - uma criança de três anos assassinada
por outra de dez, em condições que ainda não foram
bem tiradas a limpo. Diz-se que o "menor perverso" ensopou
em espírito de vinho as roupas da vítima e ateou-lhes
fogo. Propositalmente? parece impossível... Mas nada é
impossível na vida.
O
fato é que, consumado o seu ato de perversidade (ou de imprudência?)
o pequeno fugiu, e andou vagando pelas ruas, até que, já
tarde, exausto, banhado em lágrimas, foi encontrado na praça
da República e conduzido para uma delegacia policial. E os jornais,
terminando a narração do caso triste, pedem quase todos,
em quase unânime acordo de idéia e de expressão,
que "se castigue esse precoce facínora, cujos instintos
precisam ser refreados".
Que
se castigue, como? Metendo-o na Correção? mandando-o para
o Acre? fuzilando-o?
A
ocasião é oportuna para mais uma vez se verificar quanto
estamos mal aparelhados para atender às múltiplas necessidades
da assistência social. Um criminoso de dez anos não é
positivamente um criminoso... Se é verdade que esse menino conscientemente
praticou a maldade de que é acusado, o nosso dever não
é castigá-lo: é salvá-lo de si mesmo, dos
seus maus instintos, das suas tendências para o exercício
do mal. Como? naturalmente, dando-lhe uma educação especial,
uma certa disciplina de espírito. Mas onde? É aqui que
surge a dificuldade, e é aqui que somos forçados a reconhecer
que, se estamos muito adiantados em matéria de politicagem e
parolagem, ainda estamos atrasadíssimos em matéria de
verdadeira civilização...
Já
sei que há por aí uma Escola Correcional. Mas, ainda há
pouco tempo, o que se soube da vida íntima dessa escola serviu
apenas para mostrar que, lá dentro, os pequenos maus, pelo vício
da organização do estabelecimento, estão arriscados
a ficar cada vez piores. Tudo quanto se refere à assistência
pública ainda está por fazer no Brasil: asilos, escolas
correcionais, penitenciárias, presídios, não têm
fiscalização efetiva. Só pensamos nessas casas
de beneficência ou de correção, quando um escândalo,
dos que há dentro delas, faz explosão cá fora,
comovendo-nos ou indignando-nos. Então, há uma grita convulsa,
um grande espalhafato, um grande dispêndio de artigos pelas folhas
e de atividade pela polícia; mas, logo depois, tudo volta ao
mesmo estado... à espera de novo escândalo.
Tive
muita pena da pobre criança de três anos, morta no meio
de horríveis torturas. Mas tenho também muita pena dessa
outra criança, que uma brincadeira funesta (ou uma inconsciente
moléstia moral, perfeitamente curável) levou à
prática de um ato tão cruel. Nesse pequeno infeliz, que
os jornais consideram um grande criminoso, há um homem que se
vai perder, por nossa culpa, - porque não lhe podemos dar o tratamento
que a sua enfermidade requer...
Texto extraído do livro:
Obra reunida. Olavo Bilac. Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro,
1997. p. 737-738.
* No início do livro Ironia e piedade, que integra Obra reunida,
Olavo Bilac escreve:
"Quase todas estas páginas foram publicadas na Gazeta de
Notícias do Rio de Janeiro. (...)" (Obra reunida,
p. 715)
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