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Machado
de Assis
Biografia
Joaquim
Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor
realista do Brasil e, provavelmente, o maior escritor da literatura
brasileira. Nasceu numa família muito humilde e, para ajudar
a família, começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo
na Imprensa Nacional em 1856. De 1858 em diante escreve para diversos
jornais importantes com regularidade.
Dentre suas principais obras estão seus contos (O Alienista
e A Cartomante estão entre os mais famosos) e os romances
Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas
Borba e Dom Casmurro. Foi o principal fundador da Academia
Brasileira de Letras e o seu primeiro presidente. A crônica brasileira
moderna tem, em Machado de Assis, um dos seus principais fundadores.
Machado escrevia suas crônicas sob pseudônimos. Só
40 anos após sua morte é que se descobriu o verdadeiro
autor das chamadas Crônicas de Lélio.
Na crônica abaixo, Machado de Assis aborda com ironia a questão
da abolição da escravatura, que havia ocorrido no dia
13 de maio de 1888.
Crônica publicada no jornal Gazeta de Notícias,
em 19 de maio de 1888.
Bons
dias!
Eu
pertenço a uma família de profetas après coup,
post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha
em holandês. Por isso digo, e juro se necessário fôr,
que tôda a história desta lei de 13 de maio estava por
mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei
de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais
ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil,
perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste
jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro
melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem
trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto
simbólico.
No
golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua),
levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando
as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos,
restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia
que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias
e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus,
que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio,
que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão,
e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que
é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça, e pediu à
ilustre assembléia que correspondesse ao ato que acabava de publicar,
brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo; fiz outro discurso
agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços
comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí
na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões.
Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No
dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
-
Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga,
já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que...
- Oh! meu senhô! fico.
- ...Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce
neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho
dêste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver;
olha, és mais alto quatro dedos...
- Artura não qué dizê nada, não, senhô...
- Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis; mas é
de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales
muito mais que uma galinha.
-
Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares
bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio
aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte,
por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu
expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia
anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Êle
continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase
divinos.
Tudo
compreendeu o meu bom Pancrácio; daí pra cá, tenho-lhe
despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas,
e chamo-lhe bêsta quando lhe não chamo filho do diabo;
cousas tôdas que êle recebe humildemente, e (Deus me perdoe!)
creio que até alegre.
O
meu plano está feito; quero ser deputado,e, na circular que mandarei
aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes da abolição
legal, já eu, em casa, na modéstia da família,
libertava um escravo, ato que comoveu a tôda a gente que dêle
teve notícia; que êsse escravo tendo aprendido a ler, escrever
e contar, (simples suposições) é então professor
de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente
políticos, não são os que obedecem à lei,
mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre,
antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários,
trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para
satisfação do céu.
Boas
noites.
Texto extraído do livro
Obra Completa, Vol III. Machado de Assis. 3ª edição.
José Aguilar, Rio de Janeiro. 1973. p. 489 - 491.
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