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José
de Alencar
Biografia
José
Martiniano de Alencar (1829-1877) é um dos grandes nomes da literatura
brasileira. Foi advogado, jornalista, jurista, professor, orador, político,
romancista, poeta e dramaturgo. Escreveu livros que foram marcos do
Romantismo brasileiro: O Guarani e Iracema. Escreveu também
algumas crônicas, que foram publicadas no Correio Mercantil
em forma de folhetins, chamados Ao Correr da pena. Mais tarde,
esses textos foram reunidos num livro, que recebeu o mesmo nome.
Na época de Alencar a crônica era um pouco diferente da
que conhecemos hoje e parecia-se muito mais com os folhetins publicados
na Europa daquele período. Alencar escrevia textos comentando
fatos ocorridos durante a semana. Com isso, seu texto tinha dois aspectos:
um informativo, já que tinha a função de informar
os leitores, e um literário, pois o escritor desenvolvia um estilo
próprio de escrever seus textos.
Crônica publicada no jornal Correio Mercantil, em 19
de novembro de 1854.
Rio,
19 de novembro
Se
a mitologia dos povos antigos tivesse dado formas de mulher, de fada
ou ninfa, às semanas, como fêz com as horas, não
me veria às vêzes em tão sérios embaraços
para escrever esta revista.
Em
lugar de estar a cogitar idéias, a parafusar novidades, e a lembrar-me
de fatos e coisas passadas, pediria emprestado a algum dos tipos da
grande galeria feminina as feições e os traços
para desenhar o meu original.
Assim,
quando me viesse uma semana alegre e risonha, mas muito inconstante,
com uns dias cheios de nuvens, e outros límpidos e brilhantes,
iluminados pelos raios esplêndidos do sol, uma semana elegante
de teatros e de bailes, imaginaria alguma fada de formas graciosas,
de olhos grandes, com uma certa altivez misturada de uma dose sofrível
de loureirismo.
Vestiria
a minha fada de branco com algumas fitas côr-de-rosa, pedir-lhe-ia
que me contasse com tôda a graça e travessura do seu espírito
os segredos de suas horas e de seus instantes.
Ao
contrário, se fôsse uma semana bem calma e bem tranqüila,
em que os dias corressem puros e serenos, em que fizesse umas belas
noites de luar bem suaves e bem calmas, de céu azul e de estrêlas
cintilantes, lembrar-me-ia de alguma moreninha da minha terra, de faces
côr de jambo, ojos adormidillos, como dizem os espanhóis.
Então
escreveria uma poesia, um poema, um romance ou um idílio singelo,
e livrava-me assim de meter-me em certas questões graves e importantes
que ocupam a atualidade. Faria como o poeta; e limitar-me-ia às
pequenas coisas que me tivessem interessado. Nugae, quarum pars
parva fuit.
É
verdade que, quando me acertasse cair uma semana como esta passada,
onde iria eu procurar um tipo, um modêlo que a caracterizasse
perfeitamente? Lembro-me de uma mulher, que descreveu Byron, a qual,
com algumas modificações, talvez me pudesse bem servir
para o caso.
Seu
único aspecto (da mulher) valia um discurso acadêmico;
cada um de seus olhos era um sermão; na sua fronte estava estampada
uma dissertação gramatical. Enfim, era uma aritmética
ambulante. Dir-se-ia uma correspondência ou alguma velha
polêmica que se houvesse despegado do seu competente jornal, para
andar pelo mundo a discutir e argumentar.
Com
efeito, só êste tipo imitado de D. Juan poderia dar uma
ligeira idéia da semana passada, a qual num formulário
de botica podia bem traduzir-se pela seguinte receita: uma dose de sol,
duas de chuva e três de maçada. Admirável
receita para curar a população desta côrte da febre
de novidades que tem produzido a guerra do Oriente.
Os
antigos, porém, que fizeram tanta coisa boa, esqueceram-se dessa
invenção de personificar a semana, e por conseguinte não
há remédio senão deixar as comparações
e voltar ao positivo da crônica, desfiando fato por fato, dia
por dia.
Aposto
que já estais a rir dêste meu projeto, perguntando com
os vossos botões que fatos são êstes que descobri
na semana passada, que acontecimentos se deram nestes dias, que valham
a pena, não já escrever simplesmente, mas contar.
Ides
ver. Em primeiro lugar, contar-vos-ei que a semana teve sete dias e
sete noites, tal e qual como as outras. Dêstes sete dias muitos
foram de chuva, e alguns estiveram tão belos, tão frescos,
tão puros, que sentia-se a gente renascer com o sol que vivificava
a natureza. As noites foram quase tôdas de inverno e de teatro.
No
Provisório estreou a nova cantora, completando-se assim o número
das três deusas que devem disputar o pomo de ouro, o qual também
foi pomo da discórdia. O público dilettante está
por conseguinte arvorado em Paris; e os poetas já se prepararam
para cantar a nova Ilíada e as causas terríveis de tão
funesta guerra. Et teterrimas belli causas.
Em
São Pedro de Alcântara o aparecimento de João Caetano
produziu uma noite de entusiasmo e um novo triunfo para o artista distinto,
único representante da arte dramática no Brasil.
Infelizmente
as circunstâncias precárias do nosso teatro, ou outras
causas que ignoramos, não têm dado lugar a que João
Caetano forme uma escola sua, e trate de elevar a sua arte, que no nosso
país ainda se acha completamente na infância.
É
a êste fim que deve presentemente dedicar-se o ator brasileiro.
Sua alma já deve estar saciada destês triunfos e dessas
ovações pessoais, que são apenas a manifestação
de um fato que todos reconhecem. Como ator, já fêz muito
para sua glória individual; é preciso que agora como artista
e como brasileiro trabalhe para o futuro de sua arte e para o engrandecimento
de seu país.
Se
João Caetano compreender quanto é nobre e digna de seu
talento esta grande missão, que outros, antes de mim, já
lhe apontaram; se, corrigindo pelo estudo alguns pequenos defeitos,
fundar uma escola dramática que conserve os exemplos e as boas
lições do seu talento e a sua experiência, verá
abrir-se para êle uma nova época.
O
govêrno não se negará certamente a auxiliar uma
obra tão útil para o nosso desenvolvimento moral; e, em
vez de vãs ostentações, de coroas e de versos que
se procuram engrandecer ùnicamente pelo assunto, terá
o que lhe tem faltado até agora, o apoio e a animação
da imprensa desta côrte.
Uma
das coisas que têm obstado a fundação de um teatro
nacional é o receio da inutilidade a que será condenado
êste edifício, com o qual decerto se deve despender avultada
soma. O gôverno não só conhece a falta de artistas,
como sente a dificuldade de criá-los, não havendo elementos
dispostos para êsse fim.
Não
temos uma companhia regular, nem esperanças de possuí-Ia
brevemente. A única cena onde se representa em nossa língua
ocupa-se com vaudevilles e comédias traduzidas do francês,
nas quais nem o sentido nem a pronúncia é nacional.
Dêste
modo ficamos reduzidos ùnicamente ao teatro italiano, para onde
somos obrigados, se não preferimos ficar em casa, a dirigirmo-nos
tôdas as noites de representação, quer cante
a Casaloni, quer encante a Charton, quer descantem as
coristas. Tudo é muito bom, visto que não há melhor.
Já
algumas vêzes temos censurado a diretoria do teatro por certas
coisas que nos parece se podem melhorar sem grandes sacrifícios.
Hoje cumpre-nos fazer-lhe uma justiça, e até um elogio,
que ela merece sem dúvida alguma, pela resolução
que nos consta ter tomado de reparar o edifício e iluminá-lo
a gás.
A
polícia também tem-se esmerado em fazer cessar as cenas
tumultuárias e desagradáveis que se iam tornando tão
freqüentes naquele teatro, e que, se continuassem, acabariam por
afugentar dêle os apaixonados da música de batuque.
Não
é, porém, ùnicamente no teatro que a polícia
tem dado provas de atividade. Efetuou-se esta semana a prisão
de um moedeiro falso, que se preparava a montar uma fábrica dessa
indústria lucrativa.
O
crime de moeda falsa é um dos mais severamente punidos em todos
os países, porque ameaça a fortuna do Estado e a dos particulares.
Entretanto não acho razão no legislador em ter punido
ùnicamente o falsificador de moeda, deixando impunes muitos outros
falsificadores bem perigosos para a nossa felicidade e bem-estar.
Todos
os dias lemos nos jornais anúncios de dentistas, de cabeleireiros
e de modistas, que apregoam postiços de tôdas as qualidades,
sem que a lei se inquiete com semelhantes coisas.
Entretanto
imagine-se a posição desgraçada de um homem que,
tendo-se casado, leva para casa uma mulher tôda falsificada, e
que de repente, em vez de um corpinho elegante e mimoso, e de um rostinho
encantador, apresenta-lhe o desagradável aspecto de um cabide
de vestidos, onde tôda a casta de falsificadores pendurou um produto
de sua indústria.
Quando
chegar o momento da decomposição dêste todo mecânico
- quando a cabeleira, o ôlho de vidro, os dentes de porcelana,
o peito de algodão, as anquinhas se forem arrumando sôbre
o toilette - quem poderá avaliar a tristíssima
posição dessa infeliz vítima dos progressos da
indústria humana!
Nem
ao menos as leis lhe concedem o direito de intentar uma ação
de falsidade contra aquêles que o lograram, abusando de sua confiança
e boa-fé. É uma injustiça clamorosa que cumpre
reparar.
Um
homem qualquer que nos dá a descontar uma letra de uns miseráveis
cem mil réis, falsificada por êle, é condenado a
uma porção de anos de cadeia. Entretanto aquêles
que falsificam uma mulher, e que desgraçam uma existência,
enriquecem e riem-se à nossa custa.
Deixemos
esta importante questão aos espíritos pensadores, aos
amigos da humanidade. Não temos tempo de tratá-la com
a profundeza que exige; senão, resumiríamos o quadro de
tôdas as desgraças que produzem não só aquelas
falsificações do corpo, mas também muitas outras,
como um olhar falso, um sorriso fingido, ou uma palavra mentida.
Demais,
temos ainda de falar de uma outra medida do chefe de polícia
a respeito dos cães, e que interessa extraordinàriamente
a segurança pública. O que cumpre é zelar a sua
execução para que não se torne letra morta, e faça
cessar o perigo que corremos todos os dias de encontrarmos a cada momento
na rua ou no passeio a morte do hidrófobo.
Afonso
Karr levou dois anos a escrever para conseguir que a polícia
de Paris adotasse esta útil medida de segurança pública,
a que ordinàriamente damos tão pouco cuidado, e muitas
vêzes mesmo nos revoltamos por um mal entendido sentimento de
humanidade.
Um
dos maiores obstáculos que êle encontrou sempre foram certos
prejuízos, certos erros consagrados e que todo o mundo repete,
sem refletir, nem compreender o sentido das palavras que profere.
Assim,
desde a antiguidade se diz que o cão é o amigo fiel do
homem, o tipo e o môdelo da amizade.
Êste
consentimento unânime, diz o escritor francês, é
uma singular revelação do caráter do homem. O cão
obedece sem reflexões, se submete a todos os caprichos e a tôdas
as vontades sem distinção; quando o castigam, em vez de
se defender, roja-se aos pés de seu senhor e caricia a mão
que o castigou. E é isto o que o homem chama um amigo!
Já
se vê que o sentimento não é tão nobre como
o parece a princípio. Tôdas estas vãs declamações
dos poetas sobre êsse animal, que dizem representar o símbolo
da fidelidade, dão uma bem mesquinha idéia do coração
humano.
Não
é, pois, o prazer de possuir um autômato, que se move a
nossa vontade, que pode compensar um dos maiores riscos a que estamos
sujeitos, e para o qual olhamos indiferentemente.
Texto extraído
do livro:
Ao correr da pena. José de Alencar. 2ª edição.
Edições Melhoramentos. São Paulo. p. 87-92.
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