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Adiante,
você verá algumas dicas para escrever sua própria
crônica. Mas, caso você ainda não esteja muito confiante,
aqui vai uma atividade que pode ajudá-lo a observar melhor esse
gênero literário.
"Escândalos
derrubam financista japonês"
Essa manchete
foi publicada no jornal Folha de S. Paulo no dia 23 de julho
de 1991. Com base nela, Ricardo Semler escreveu
a crônica abaixo.
Crônica
publicada no jornal Folha de S. Paulo, em 28 de julho de 1991.
É
de puxar os olhos
E o camarão
se mexeu. O danado estava vivo! Posso parecer um pouco caipira, já
tinha comido peixe cru em restaurante japonês, mas cru e vivo,
nunca! Foi só pegar no bicho com os tais pauzinhos e vuupt, o
camarão deu um salto de samurai de volta para o prato. E assim
progredia a visita ao Japão...
Descer no aeroporto de Narita leva à reflexão sobre o
que incentiva milhares de nisseis a abandonarem o Brasil à procura
de uma oportunidade no Japão. Logicamente, ganhar dinheiro verdadeiro
é uma razão. Em vez de trocarem o seu esforço por
uma moeda-piada do tipo cruzeiro, cruzado ou cruz-credo, o conforto
de botar alguns iens no banco e saber que ainda estará lá
quando for verificar o extrato. Até aí tudo bem. Mas fico
pensando se o desespero é parte vital da decisão e se
os nossos nisseis sabem no que estão se metendo.
Esta semana foi interessante aqui. A primeira-ministra da França,
Edith "menina-veneno" Cresson, disse que os japoneses não
sabem viver, que mais parecem umas formigas. O pessoalzinho daqui ficou
uma vara. Passados alguns dias, bomba em cima de bomba com casos magistrais
de corrupção nos mais altos níveis (ao leitor distraído
reafirmo que estou em Tóquio e não em Brasília).
Começou com o Marubeni, acusado de desvios de propinas para políticos.
Aí, foi a vez da Nomura, a maior corretora de bolsa de valores
do mundo, que andou desviando dinheiro e dando propina para políticos.
E, para finalizar a novela da semana, a Itoman vê os seus executivos
saírem algemados por envolvimento em - pasmem! - desvio de fundos
e propinas para políticos. E foram três casos totalmente
independentes um do outro...
Rumar para o Japão à procura do pote de ouro do fim do
arco-íris é uma ingenuidade. O Japão é moderno,
mas as suas tradições milenares desafiam qualquer análise
ou compreensão superficial. É a meca da inovação,
mas é também o país que mais copiou produtos na
história industrial. Tem ares de liberdade de mercado, mas é
uma das nações mais protecionistas e paternais do globo.
É líder em tecnologia em diversas áreas, mas só
deixa japoneses legítimos assumirem qualquer cargo de importância
nas empresas. Fã do capitalismo livre, é mestre inigualável
de intervenção estatal e poupança forçada.
É nação orgulhosa de sua raça, mas os seus
ídolos de comerciais não têm nem mesmo os olhos
puxados, a exemplo de um comercial muito popular por aqui com o nosso
"acerera A-i-roton"! Aos nisseis que pensam em vir para cá,
cabe a mesma reflexão que vale para Nova Jersey ou Lisboa. Todas
as nações têm muito a ensinar, mas também
muito a aprender. Nivelar as expectativas com os pés no chão
fará com que nossos imigrantes voltem algum dia ao Brasil para
ajudar a desatolar o nosso país com o que vivenciaram fora. É
bom colocar tudo no prato para evitar, como no caso do meu camarão
rebelde, que se acabe comendo cru...
Texto extraído do livro
Embrulhando o Peixe - Crônicas de um Empresário do Sanatório
Brasil. Ricardo Semler. Editora Best Seller. 2ª ed. São
Paulo. 1992. p. 58 - 59.
Atividades com base na crônica
Com base
na crônica e na manchete do jornal acima, tente realizar as atividades
a seguir:
1) Quais
são as idéias defendidas por Semler ao longo do texto?
Tente fazer uma lista com essas idéias.
2) Será
que você tem a mesma opinião sobre esse assunto? Faça
uma lista com as suas idéias.
3) Em que
parte do texto Semler menciona o acontecimento que dá origem
à sua crônica? No início? Ao longo do texto?
4) Como
Semler encerra sua crônica? Há alguma ligação
entre a frase que encerra e a que inicia a crônica?
5) O escritor
estabeleceu alguma relação entre o Brasil e o fato ocorrido
no Japão?
6) Qual
o "recado" central que Semler quer dar com esse texto? Existe,
na crônica, alguma frase que sintetize essa idéia?
Muito bem! Você pode fazer exercícios como esse usando
crônicas recentes, que são publicadas em jornais e revistas.
Ricardo
Semler
O empresário
Ricardo Frank Semler nasceu em São Paulo, em 1959. Ficou bastante
conhecido graças ao seu livro Virando a própria mesa,
no qual relata suas experiências ao propor uma gestão democrática
em sua empresa. Foi eleito o empresário do ano em 1990 e em 1992.
Mais tarde, passou a escrever crônicas para o jornal Folha de
S. Paulo, abordando assuntos polêmicos de forma crítica
e bem humorada.
A
seguir:
Faça sua crônica
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