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Questão Cultural no Brasil |
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Em 1944, em plena Segunda Guerra Mundial, era lançado o primeiro liquidificador no Brasil. Mas, um momento! O que um liquidificador tem a ver com o nosso assunto, a Guerra Fria? Tem tudo a ver. Liquidificador, televisão, máquina de lavar, torradeira, aspirador de pó... Enfim, o uso da tecnologia na vida cotidiana refletia, e ainda reflete, um determinado modo de vida, um ideal de felicidade inspirado na sociedade consumista surgida nos Estados Unidos nos anos 20. Foi justamente a partir desse modo de vida típico do capitalismo que se desenvolveu a mensagem ideológica ocidental durante a Guerra Fria. Uma mensagem que se propagou por todo o mundo capitalista.
Ideologia do consumo Em todo o mundo fora da esfera socialista, comprar eletrodomésticos e automóveis tornou-se parte de um projeto de vida. O Brasil recebeu em cheio o impacto da ideologia consumista e da revolução tecnológica norte-americana. Nossa classe média, principalmente, adotou o sonho do carro na garagem e consumiu em larga escala a fantasia exportada por Hollywood.
As novas tecnologias e a arte
"A afirmação
de que a Semana de Arte de 22 foi o evento mais significativo na história
cultural brasileira acaba por acobertar alguns outros significados que podem
ser associados ao Modernismo. Para além de ser um capítulo
na história da nossa literatura, das artes plásticas, da música,
o Modernismo foi significativo para a composição, para a fundação
de uma nova identidade nacional. Os artistas, os participantes da Semana
de 22 procuraram incorporar todos os procedimentos técnicos poéticos
das vanguardas européias. Nesse sentido, buscaram atualizar as questões
da literatura, da arte, da música e, ao mesmo tempo, resgatar elementos
da tradição popular brasileira. Isso deu origem a uma cultura
ambígua que expressava cosmopolitismo por um lado, fruto de uma modernização
crescente, fruto da industrialização, fruto da presença
de imigrantes na sociedade brasileira; por outro lado, expressava também
o resgate das tradições populares especialmente das classes
que durante muito tempo não figuravam naquilo que se poderia chamar
de cultura brasileira. Trata-se então de um país que incorpora
a cultura européia mas que tem uma cultura, traços culturais
diferentes, variados, múltiplos e que produz algo novo. Talvez a
expressão mais bem acabada disso tenha sido a Antropofagia." Nélson
Schapochnik
historiador
Desenvolvimento econômico e produção cultural Nas décadas seguintes, sobretudo a partir dos anos 40, o país viu crescerem as atividades de pesquisa e a formação de mão-de-obra qualificada nas universidades. Ao mesmo tempo, a classe média brasileira embarcava com tudo na ideologia do consumo. Foi durante o governo de Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1961, que se firmou no Brasil a convicção de que o progresso dependia do desenvolvimento industrial. O Plano Nacional de Desenvolvimento de Juscelino tinha o slogan "Cinqüenta Anos em Cinco", propondo a realização, em cinco anos, de um trabalho de meio século. No governo JK, as indústrias básicas, que produziam alimentos, máquinas e peças, expandiram seus negócios. A produção industrial teve um crescimento de 80 por cento. Para viabilizar a produção de energia, fundamental para o desenvolvimento, foram construídas grandes obras, como as hidrelétricas de Furnas e Três Marias, em Minas Gerais. Além disso, o mercado brasileiro se abriu para as montadoras de automóveis, como a Ford, a General Motors e a Volkswagen.
João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes... A Bossa Nova As mudanças nos grandes centros urbanos tiveram reflexos nas artes, na ciência e na tecnologia. Enfim, na produção cultural do país. O aumento da população economicamente ativa criou condições para o desenvolvimento comercial do teatro, do cinema e da música. Foi assim que, no final dos anos 50, surgiu a bossa nova, com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, entre outros. Eles beberam na fonte de músicos como Pixinguinha, Noel Rosa, Ari Barroso, Lamartine Babo e Villa-Lobos. Reunidos em sessões musicais na casa da cantora Nara Leão, no Rio de Janeiro, os criadores da bossa nova identificavam-se com os grandes sambistas cariocas. Ao mesmo tempo, dialogavam com as formas do jazz produzido nas grandes cidades dos Estados Unidos, como Chicago e Nova York.
Teatro e cinema: efervescência No teatro, Nélson Rodrigues escandalizava ao retratar a hipocrisia e os conflitos da classe média urbana típica, angustiada por problemas materiais e incertezas existenciais. O estilo direto e ferino do dramaturgo chocava-se com os valores tradicionais da sociedade. No cinema, a produtora Atlântida adotou a fórmula da chanchada, inspirada na receita de sucesso de Hollywood. Outra produtora, a Vera Cruz, lançou-se a uma vertente mais séria, produzindo filmes com um conteúdo mais elaborado e dentro dos padrões industriais do cinema americano.
Num mundo em transformação, medo do comunismo
No início dos anos 60,
o país estava em processo de transformação, em todos
os sentidos. Brasília prometia a modernidade, as grandes cidades
estavam mudadas e a arte buscava novos caminhos. No dia-a-dia, a presença
cultural norte-americana se multiplicava por todos os lados: na grande indústria,
nos arranha-céus, na publicidade, nas roupas, no cinema. Com a grande
concentração de operários nas cidades, surgiu o receio
de movimentos trabalhistas e sindicais. |