1964. O mundo está afogado na Beatlemania. Através da
criatividade moderada, mas apaixonada, eles estão propondo um
novo diálogo entre as gerações. Multidões
densas e exaltadas não esperam o Papa ou a Rainha. Querem apenas
ver de relance um grupo de quatro jovens rapazes, de 21 a 23 anos, que
já tinham virado seu século de cabeça para baixo.
Se "só" fosse o Papa Paulo VI ou a Rainha Elizabeth II, a tarefa
seria muito mais fácil para a guarda policial . Fora da confusão,
muitas jovens saem mancando de volta para casa. Mas, estão em
êxtase. Podem guardar na memória o dia em que estiveram
na presença de John, Paul, George e Ringo.
Em aeroportos internacionais, as multidões são igualmente
densas e exaltadas. Nelas, um pouco menos frenéticos do que os
adolescentes fanáticos, jornalistas de rádio e televisão
transmitem os mínimos detalhes das viagens dos quatro jovens
heróis. Parece a libertação de Paris ou a reencarnação
de algum Messias.
Londres, Berlim, Adelaide, Tóquio, Nova York, Toronto e Auckland:
o mesmo frenesi. Os jovens do mundo todo entram num estado comum de
transe, chamado Beatlemania. Diante da reviravolta que provocam,
os jovens audaciosos mantêm sempre a pose de bons meninos. Jamais
imaginaram fazer tanto sucesso. Antes deles, nunca havia sido visto
triunfo semelhante.
Tinham um descaramento delicioso, esses Beatles. Num show, diante da
Rainha, John Lennon disse: "Aqueles que estão nos lugares mais
baratos podem aplaudir, o resto é só balançar as
jóias".
Nascidos nos subúrbios da classe trabalhadora de Liverpool, nunca
esqueceram sua origem humilde. Foram heróis da classe operária.
Chocaram os presunçosos. Mas o Ministro do Trabalho, Harold Wilson,
não tardou a reconhecer seu valor para a Grã-Bretanha
como indústria exportadora. A revista TIME inventou o termo "Beatlemania"
em 1963. Espalhou-se como relâmpago pelo mundo todo.
Antes dos Beatles, a música popular era dividida em vários
estilos: rock, fox, jazz, country, blues. Com eles, a música
pop ganhou uma linguagem complexa, rica em mistura de ritmos e fontes
melódicas - música clássica, até música
oriental. Alguns críticos escreveram sobre eles. O Sunday Times
afirmou:"São os melhores compositores desde Beethoven". O France
Soir : "São os antigos swingers adaptados aos nossos dias com
o Yeah Yeah Yeah". O Daily Telegraph comparou a Beatlemania com a histeria
das massas alemãs em comícios nazistas a favor de Hitler.
Na Áustria, pessoas de direita gritavam: "Não queremos
animais aqui! "
Os Beatles. Uma música eletrizante. Os cabelos compridos, comportamento
que chocava na época, foram sua marca registrada.
Os fãs, fascinados com o novo corte de cabelo, não viam
a hora de seus cabelos crescerem também. Quando um jornalista
perguntou a George Harrison o nome do novo corte, ele respondeu: "Arthur!".
John Lennon disse - de forma um tanto descuidada -: "Somos mais populares
que Jesus Cristo", em 3 de julho de 1966. O primeiro capítulo
da história dos Beatles terminou com esse escândalo. Mas,
o mito continua.
|