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Padre José de Anchieta
No Brasil

ANCHIETA NO BRASIL
Anchieta Taumaturgo - Sex. XVII
Museu Páteo do Colégio
Era dia 13 de julho de 1553, quando Anchieta chegou ao Brasil, o "paraíso terrestre", como descreviam os historiadores contemporâneos do padre. A Terra de Santa Cruz podia ser considerada um sanatório onde aportavam doentes com tuberculose, varíola e outras doenças contagiosas. Anchieta tinha 19 anos. era o mais jovem dos jesuítas na esquadra do Governador Duarte da Costa. A saúde do noviço melhorava sensivelmente. Quando desceu em Salvador estava praticamente curado.

Para José de Anchieta e todos os jesuítas que vieram evangelizar o Novo Mundo, os índios eram pagãos a serem convertidos.

O próprio papa Paulo III havia publicado, em 1537, a bula Sublimis Deus, que considerava todas as raças iguais em face da redenção.

Os evangelizadores acreditavam que não havia salvação fora da Igreja e até imaginavam, antes de conhecer as condições de vida na América, que qualquer pessoa só poderia ser católica se vivesse de acordo com a civilização cristã européia.

Ilustração de Theodore De Bry
Relato das Viagens de Hans Staden ao Brasil 1592

O irmão José acabou se tornando o elo de aproximação definitiva entre os índios e os padres. Conseguiu unificar a língua falada pelos nativos, com a qual apresentou a doutrina cristã.

DE SALVADOR A SÃO VICENTE

O jovem Anchieta, então com vinte anos, já tinha destino certo: a Capitania de São Vicente. Lá iria ajudar o padre Manuel da Nóbrega na catequização dos nativos. A viagem de Salvador a São Vicente foi, porém, extremamente difícil. Na altura de Abrolhos, no sul da Bahia, as duas naus em que viajavam Anchieta e outros jesuítas foram surpreendidas por uma tempestade. Uma delas, arremessada pelas ondas contra os rochedos, espatifou-se. Milagrosamente, ninguém morreu. A outra, em que estava Anchieta, acabou presa nos recifes. Seus ocupantes viveram uma noite de terror com a força das ondas, que o tempo todo ameaçavam destruir a nau. No dia seguinte, o mar amanheceu calmo e eles conseguiram chegar à terra.

Anchieta e a índia Cecília
Ilustração de Seth
Ao procurar comida, tiveram um encontro com os índios do lugar. Na aldeia, Anchieta viu uma indiazinha muito doente, à beira da morte. Batizou-a Cecília. Depois de consertado o barco, veio a hora da partida.

Anchieta seguiu contente, pensando: "O acidente com o barco foi obra da Providência Divina. Era o meio de salvar a inocente Cecília, que estava predestinada."

A LÍNGUA TUPI E A EVANGELIZAÇÃO

"...Era destro em quatro línguas: portuguesa, castelhana, latina e brasílica, e em todas elas traduziu em romances pios, com muita graça e delicadeza, as cantigas profanas que então andavam em uso..."

Trecho do livro Chronica da Companhia de Jesus do estado do Brasil
de Simão de Vasconcellos, S.J. - 1663


"Oú tubixá katú
mamó suí nde reká,
nde pópe imeengatú.
Aroporaséi serú
xe abé, xe anametá."
Tradução: "Veio cacique valente
de longe a te procurar
e às tuas mãos se entregar.
Também trago meu parente
para comigo dançar
Poema do Padre José de Anchieta escrito da língua tupi - "Oú Tubixá Katú"

Decifrar o tupi foi uma das tarefas que Nóbrega confiou a Anchieta. Em seis meses ele completou o aprendizado e, em um ano, dominava a língua. Dois anos depois de ter chegado ao Brasil, escreveu a sua Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil, publicada em Portugal somente em 1595. Além da gramática, Anchieta dedicava seus dias a ensinar o latim e o português a curumins e índios adultos. Aos irmãos jesuítas, ensinava a língua tupi. O repouso não chegava à noite para ele. Era nessa hora que escrevia manuais para os alunos, cartas sobre o trabalho dos jesuítas e obras diversas, entre elas um dicionário de tupi e um tratado sobre a flora, a fauna e o clima da Capitania de São Vicente.




"O tupi de Anchieta é o tupi do século XVI. Esse tupi praticamente morreu no sentido de que a língua tupi foi marginalizada, foi substituída pelo português. Não se deu no Brasil o que ocorreu, por exemplo, no Peru e no México, onde os índios locais tinham tradições até de língua escrita e cujo dialetos permaneceram... Isso não aconteceu no Brasil. A experiência de Anchieta foi até certo ponto abortada, uma experiência que não foi levada até o fim. Ele escreveu em tupi, mas, como não houve nos séculos seguintes sucessores para a língua, o tupi foi substituído pelo português."
Depoimento do prof. Alfredo Bosi.


O PLANALTO DE PIRATININGA
No colégio de Piratininga a atividade era intensa. Muito mais do que um centro de aprendizado para portugueses e índios, esse colégio significava o início de uma estrutura independente para os jesuítas, que aqui podiam formar novos padres sem precisar mandá-los a Coimbra. Era o primeiro posto avançado da Companhia de Jesus em terras indígenas, distante das vilas portuguesas do litoral.
Páteo do Colégio
Hoje

A insistência dos jesuítas em não limitar suas explorações do território à faixa litorânea deu a eles um conhecimento mais amplo das possibilidades da terra. E Anchieta foi enviado ao Planalto de Piratininga para desbravar os novos campos. Dessa experiência ele dizia: " é um caminho mui áspero, creio que o pior que há em muita parte do mundo, de atoleiros, subidas e matos."



"...Tratava-se de uma trilha que pouco diferia das trilhas dos nativos. Os nativos, como nós sabemos, caminhavam pela Serra do Mar em trilhas que pouco davam para passar um homem... ...O caminho foi alargado, melhorado e foram encontrados, então, diversos indícios que mostram que ali houve uma estrada muito utilizada, muito batida..." ...Se nós quisermos estudar a história de São Paulo, ela praticamente está escrita aqui na Serra do Mar, em momentos decisivos: a fase da evangelização, logo ao primeiro século de colonização, depois a época em que os tropeiros pediram um caminho melhor, e finalmente, a época de D. Pedro II, quando se podia subir com carros de tração animal."
Depoimento de Benedito Lima de Toledo
Professor Arquitetura e Urbanismo - FAU.


No topo da serra, grande foi a sua surpresa. Encontrou ali um povoado de mamelucos, chamado Santo André da Borda do Campo.

O chefe desse povoado era um homem ardiloso, que se insinuou a princípio como aliado e depois acabou criando dificuldades para os jesuítas: João Ramalho, um ex-náufrago português, casado com Bartira, filha do cacique Tibiriçá, caçava índios para vendê-los como escravos. O objetivo dos jesuítas, porém, era chegar à aldeia indígena de Tibiriçá, no vale do Anhangabaú.
Monumento à Fundação de S. Paulo
de Luiz Morrone - Pq. Ibirapuera

Cumprido o objetivo, trataram de se instalar e fundar o Colégio, o que não ocorreu sem sangue. Logo no primeiro ano, o povoado sofreu violento ataque de tribos que resistiam ao contato com portugueses. Em compensação, os tupis do campo mostravam-se amigáveis e dispostos à evangelização.



"...Os antropólogos hoje julgam que o ideal seria ter deixado os índios com a sua própria cultura. É o pensamento contemporâneo. Parece-me um pensamento mais justo, isto é, os índios permanecerem com a sua religião, com os seus ritos, com a sua cultura, mas, relativamente falando, é muito complicado pensar que um jesuíta do século XVI viesse aqui e se abstivesse totalmente de influir, quando ele veio exatamente com a finalidade de converter..."
Depoimento de Alfredo Bosi.


Imagem Quadro
Anchieta
Benedito Calixto
O sino da igreja ditava a rotina do povoado de Piratininga. Pela manhã curumins e índios adultos, espontaneamente ou por imposição, atendiam aos chamados do sino para a Ave-Maria. Depois, as crianças passavam aos estudos e os adultos iam cuidar de seus afazeres. No final da tarde, o sino chamava para mais uma aula de religião. E, ao cair da noite, guiados pelos jesuítas, curumins e pequenos mamelucos saíam em procissão, da porta da igreja até a cruz.

"A unificação da língua é um fenômeno de homogeneização das diversidades da cultura indígena e foi um processo extremamente facilitador da conversão, seja porque dessa forma você, digamos, escamoteava as diferenças e unificava os índios na ordem comum de grupos convertidos, seja porque a conquista da língua tupi, inclusive da gramática de Anchieta, foi uma maneira de penetrar no âmago da estruturação da linguagem indígena e transfigurá-la na linguagem cristã."
Depoimento Celeste Tangerino
Antropóloga

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