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LOGO Do geocentrismo ao heliocentrismo

Alguma vez você já deve ter se perguntado: "Como alguém, olhando de uma praia para a linha divisória entre o céu e o mar, evidentemente arredondada, poderia pensar que a Terra era plana?"

Imagem praia Peruibe
Praia de Peruíbe
Tudo bem...a Terra poderia ser um disco, e, quando o barco chegasse lá no "fim do mar", despencaria pelo universo numa grande cachoeira. Mas, o Homem navega há muitos milhares de anos e as mulheres dos pescadores sabem que os seus maridos desaparecem no horizonte e regressam dizendo que há "mais mar" além do horizonte.
Hoje vivemos num mundo em que as sondas espaciais enviam imagens incontestáveis de que a Terra é redonda. Não somente ela, mas um bom número de corpos celestes.

O primeiro a considerar isso talvez tenha sido PITÁGORAS, no século VI antes de Cristo. É claro que, na época de PITÁGORAS, outros ainda consideravam a Terra plana, sustentada às vezes por seres mitológicos.

Hoje é difícil imaginar a Terra fixa, no centro do universo. Mas, até os séculos XV e XVI, a Igreja e os que detinham a informação como forma de poder diziam que nós éramos o centro da criação. Quem pensava diferente corria sérios riscos diante da inquisição. Hoje nós sabemos que a Terra faz parte de um sistema planetário que tem movimento de rotação, movimento de translação em torno do Sol e muitas outras complicações.

É verdade que a gente tem uma certa dificuldade de entender exatamente como tudo isso acontece. Desde o período medieval há uma série de argumentos contra os movimentos da Terra que, se apresentados para alunos que estão começando um curso colegial, tornam-se praticamente intransponíveis.

Sinta-se como um desses alunos diante de seu professor.
Imagem aula
Eu vou fazer o papel de advogado do diabo.
Eu chego aqui e falo: "Nada de me enganar... a Terra tá parada. Porque afinal de contas a Terra está parada ! Ou não...?
Está girando? Como é que você me mostra que a Terra está girando?
A passagem do dia e da noite é prova de que a Terra está girando?

Então, eu chego para você e falo assim: a Terra está parada, e todo o resto, incluindo o próprio Sol, está girando. Do nosso ponto de vista isto não é possível?


Vamos imaginar então que a Terra está girando. Se a Terra está girando, ela carrega consigo as árvores, os prédios, as pessoas, enfim, carrega tudo.


Aí tem um pássaro em uma árvore. Quando vê uma minhoca, ou melhor ainda, ele vê um bichinho voando, ele sai da árvore e pega o bicho. Como ele consegue voltar par a mesma árvore se a Terra - a Terra toda - está girando, está levando a árvore consigo? Quando o pássaro sai da árvore, tudo vai embora. O pássaro pega o bicho e quando vai voltar... cadê a árvore?

Você não acha que esse é um bom argumento favorável ao fato de que Terra está parada no centro do universo? É... nós ainda somos bastante GEOCÊNTRICOS... Mais do que isso, nós somos TOPOCÊNTRICOS. E é justo pensar assim, porque é o que nós sentimos vivendo na superfície do planeta.

Como o ar e o mar poderiam ficar parados na superfície da Terra, como querem esses astrônomos enlouquecidos, se ela gira a mais de 1000 quilômetros por hora? Impossível!... Impossível, mas é verdade: um ponto na superfície do planeta, na altura do equador, gira em torno do eixo da Terra, em 24 horas, a aproximadamente 1700km/h. Voltemos à nossa aula.

Quer ver outro argumento forte que os geocentristas utilizavam?! Agora eu sou um homem do passado e vocês me dizem que a Terra está girando nessa velocidade toda. Aí eu dou uma risadinha, subo numa torre, pego a minha espada e a solto do alto da torre. Se a Terra estivesse girando, a minha espada ia parar lá longe... mas não, ela cai ali mesmo, no pé da torre. Sinal de que a Terra está parada, não é?

Bom... digamos então que a gente pegou uma nave espacial e foi para a Lua. Estamos aqui na superfície da Lua, olhando a Terra, bonita, se pondo na Lua.

O que a gente vê é o movimento da Terra ou da Lua?

Será que lá na Lua, a gente sente o movimento da Lua?

Bom, então está resolvido: o sistema é LUNOCÊNTRICO!?!?

A chegada do homem à Lua foi um marco na mudança da visão cosmológica, não pelo fato em si, mas pelo contexto em que ocorreu. Final da década de 60, período de grandes transformações. A ciência e a tecnologia colocaram o Homem na Lua e nós, da nossa parte, mudamos nossa visão sobre o universo. Os astronautas na superfície da Lua experimentaram instantaneamente uma nova noção de centro do universo. Olhar o céu da superfície do nosso satélite é mudar o tempo e retomar todas as perguntas que construíram nossa visão cosmológica.

A Terra primeiro era plana, e em torno da dela giravam todas as estrelas fixas no céu. Os planetas também tinham seus movimentos próprios, independentes das estrelas. E, é claro, o Sol girava em torno da Terra.

Em alguns modelos existia um fogo intenso por fora de todo o sistema e as estrelas eram orifícios numa redoma celestial que revestia e protegia a Terra.

E esse não era o único modelo que considerava um fogo eterno no centro do universo. Imaginava-se que essa era a morada de ZEUS. Os planetas giravam ao redor do próprio Sol e a própria Terra também. Só que nós não veríamos esse fogo central, porque havia uma ANTI-Terra sempre encobrindo a visão dos homens comuns. Como esses, outros tantos modelos foram surgindo, modelos que relacionavam imagens e movimentos e quase sempre a Terra no centro.
Imagem modelo
Modelo de universo - séc.VI a.c.

PTOLOMEU imaginou um sistema complicado de movimentos dos planetas em torno da Terra. Para ele, os planetas na verdade giravam em coisas chamadas "EPICÍCLOS", cujos centros se movimentavam em outros círculos chamados "DEFERENTES". Era uma complicação.

Quem introduziu, entre outros é claro, a idéia do sistema HELIOCÊNTRICO foram GALILEU GALILEI e NICOLAU COPÉRNICO. COPÉRNICO pensou teoricamente um modelo, enquanto GALILEU partiu das observações - com as primeiras lunetas - para a conceituação de um universo centrado no Sol. É... as estrelas ainda estavam lá, fixas em algum ponto do céu, sem muitas explicações.

Satélites em torno de planetas, anéis, planetas fazendo movimentos difíceis de explicar... As coisas começavam a mudar com a busca da liberdade de pensamento e a utilização de novas tecnologias. Mas, ainda no século XVI, não era fácil explicar satisfatoriamente alguns eventos astronômicos, como eclipses e cometas.

Aliás, os cometas durante muito tempo foram considerados fenômenos da própria atmosfera, algo como a aurora boreal, por exemplo.

As coisas só foram se esclarecendo ao longo do tempo, mostrando que a história da ciência não é feita por heróis que chegam com suas idéias prontas e acabadas. As teorias vão se implantando aos poucos, com a contribuição de muitos. Por exemplo, até o século XVIII só se conheciam 6 planetas. Pela ordem: MERCÚRIO, VENUS, Terra, MARTE, JÚPITER E SATURNO. Depois foram descobertos URANO, NETUNO E PLUTÃO. PLUTÃO, aliás, é um planeta descoberto apenas neste século.

As transformações na cosmologia e na ciência não se dão de forma linear. Ao contrário, fluem e refluem ao sabor das pressões sociais e da evolução tecnológica e "insights" individuais. Muito antes que uma luneta poderosa identificasse PLUTÃO, JOHANNES KEPLER definia as órbitas dos planetas e NEWTON as leis da GRAVITAÇÃO UNIVERSAL.

A evolução da óptica na construção de instrumentos possibilitou ao astrônomo EDMUND HALLEY a identificação das características dos cometas, e a WILHEN HERSCHEL o descobrimento do planeta URANO, além da introdução da idéia de sistemas estelares, que modernamente nós chamamos de GALÁXIAS.

Discutir se foram os instrumentos os responsáveis pela evolução na cosmologia, ou se essa é que exigiu a evolução dos instrumentos, é uma longa discussão. Mas as teorias exigiam equipamentos sofisticados para sua comprovação, e os novos instrumentos abriam espaço para novas teorias. Foi assim com a diferenciação entre Nebulosas e Galáxias, a descoberta de asteróides e novos planetas. Foi assim com o grande telescópio do MONTE PALOMAR, que permitiu a EDWIN HUBBLE a construção da teoria de um universo EM EXPANSÃO, estimando em 18 bilhões de anos o tempo decorrido desde o BIG BANG.

O centro de tudo deslocava-se definitivamente do nosso próprio umbigo para um ponto indeterminado no cosmos.

EDWIN HUBBLE estava observando as galáxias e percebeu que elas se distanciavam umas das outras.

Posteriormente, começou-se a perceber que tudo no universo está se distanciando e, portanto, em algum momento do passado toda a matéria do universo deve ter estado reunida em algum ponto.
Imagem Edwin Hubble
Edwin Hubble

O nosso professor tem uma boa imagem pra ilustrar o conceito.

Se as galáxias fossem pontinhos na superfície de uma bexiga, à medida que você fosse inflando a bexiga, à medida que ela fosse crescendo, os pontinhos estariam se distanciando.

Eu sei...você é um bom observador e já percebeu que nesse exemplo os pontinhos da bexiga estão aumentando de tamanho. Mas isso não acontece no universo... as galáxias não se expandem, elas funcionam como moedas coladas à nossa "bexiga-universo". Ou seja, não são as estrelas que estão se afastando umas das outras, mas sim as galáxias.


É claro que o universo não é uma bexiga. Não é uma película se esticando. Talvez dê pra imaginar uma infinidade de bexigas, pra dentro e pra fora da nossa bexiga, com moedas coladas.


Imagem aulaE então você me pergunta: ONDE ESTÁ O CENTRO? E eu te devolvo a seguinte pergunta: NA SUPERFÍCIE DA BEXIGA, QUAL É O CENTRO DA EXPANSÃO?


Não tem centro, a superfície toda está se expandindo. As galáxias todas estão se distanciando uma em relação às outras. Essa é a idéia que está por trás do modelo de um universo que se expande em 3 dimensões, ou até em 4 dimensões. Pensar o Cosmos é pensar em si mesmo da maneira mais abrangente possível. Os egípcios imaginavam o universo como uma grande caixa retangular sobre o Nilo. Os gregos procuravam um princípio formador do universo. Já no nosso século, quando os referenciais eram considerados obsoletos, ALBERT EINSTEIN e outros físicos chegaram a teorias modernas, como a teoria DA RELATIVIDADE ESPECIAL, por exemplo, que trata dos referenciais, ou a teoria GERAL DA RELATIVIDADE, que faz a ligação entre a geometria e a física. A teoria QUÂNTICA explica a microfísica das relações de partículas. Essas teorias apontam para a unificação entre campos aparentemente díspares do conhecimento.

Universo aberto, fechado, estacionário, em expansão . . . essa multiplicidade de idéias, antes de criar confusão, é a demonstração da busca constante do homem por suas origens e sua posição no universo.

As observações recentes mostram que nem todas as galáxias participam do movimento uniforme de expansão, ilustrado pela bexiga inflada e pelas moedas coladas, o que sugere muitas hipóteses como, por exemplo, vários BIG BANGS originando o universo conhecido. Os centros estão mudando o tempo todo.

As sondas espaciais enviam permanentemente imagens e informações que exigem novas teorias. O telescópio HUBBLE, por exemplo, ainda está apenas iniciando sua vida útil e já tem muitas novidades.

As surpresas não param e este programa seria infinito, como infinita é a nossa curiosidade sobre o universo.


ENSINAR E APRENDER
1 - Novamente estamos diante de um programa que é a própria atividade. Ou melhor, uma série de atividades que podem ser melhor exploradas quando desenvolvidas em separado. Por exemplo, a "brincadeira" do passarinho saindo da árvore, ou a "história" do cientista do passado que joga um objeto do alto da torre podem provocar um bom debate em classe, encaminhado pelas seguintes questões:

- existe algum centro para o universo ?
- até que ponto estamos convictos de um sistema heliocêntrico ?

2 - Na mesma linha, a idéia da bexiga pode servir como estímulo para a criação de outros "modelos" para o universo, segundo a teoria do Big Bang. A feira de ciências pode ser um bom espaço para a troca das experiências e debates.