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LOGO O Colecionador de Estrelas

        
As nossas gravações tiveram como base principal as instalações do INSTITUTO ASTRONÔMICO E GEOFÍSICO DA USP, que tem entre as suas atividades principais um sistema de atendimento a grupos de escolares que se iniciam nas observações do céu utilizando a luneta instalada na cúpula principal do complexo. A observação noturna no telescópio é complementada pelo trabalho teórico dos cursos com os professores do IAG, que orientam os estudantes nos primeiros contatos com o céu.
Imagem IAG
Observatório - IAG (SP)


É por aí que a gente aprende a colecionar estrelas. Uma coleção é uma mistura da memória e imaginação. A memória vem do prazer de reviver a história e os bons momentos. A imaginação nasce da informação, do conhecimento. O grupo que participou da nossa gravação estava observando a INTROMETIDA, aquela quinta estrela do CRUZEIRO DO SUL. Ela é a menos brilhante da constelação e é difícil de ser vista nos grandes centros, cheios de poluição. O CRUZEIRO todo mundo reconhece, é só não ter muita luz por perto.

MAS O QUE É UMA CONSTELAÇÃO?
A idéia de constelação provavelmente nasceu da necessidade de organizar o céu para facilitar a observação a olho nu. Os agrupamentos de estrelas foram associados a um passado mitológico muito distante. CLÁUDIO PTOLOMEU, no segundo século depois de Cristo, listou 48 constelações, e esses nomes são usados até hoje. O CRUZEIRO DO SUL, como o nome indica, é visível predominantemente no hemisfério sul. Ele só foi registrado como constelação nos séculos XVI e XVII, e é por isso que ele não aparece na lista de PTOLOMEU. Mas, para poder observar um céu limpo, com o CRUZEIRO e todas as outras constelações, o melhor é ir para o interior, sul de Minas, por exemplo, MONTE VERDE. O frio da montanha atrai os turistas e cria o clima para a integração de grupos de estudantes que vêm olhar para o céu.

Todo mundo, pelo menos uma vez, já olhou para o CRUZEIRO DO SUL e imaginou navegadores perdidos no Oceano Atlântico, procurando orientação nas estrelas. O Cruzeiro é uma das referências no hemisfério sul, porque seu braço maior aponta sempre para o pólo celeste sul. Nessa viagem para MONTE VERDE acompanhamos um grupo de estudantes de segundo grau que começa sua observação de campo experimentando uma técnica simples mas eficiente de medidas angulares.

Imagem mão
Walmir e seu "instrumento"
O instrumento é o braço esticado e nossa mão aberta, entre o indicador e o polegar; olhando com um único olho, nós temos 20 graus de diferença. É uma distância angular. Com nossa mão fechada, ainda com o braço esticado, temos 10 graus de diferença entre as articulações do indicador e do dedo mínimo. Nosso dedo polegar esticado mostra, para nós, 5 graus de distância angular. Dobrando a primeira falange do polegar, e ainda olhando com um único olho, dá pra estimar 3 graus de distância angular.É verdade que o nosso corpo não é um instrumento muito preciso, mas em compensação é muito útil.

Depois de achar o Cruzeiro no céu, é fácil se localizar aqui na Terra. Se estendermos uma linha imaginária a partir do madeiro maior do cruzeiro, e repetirmos quatro vezes e meia a sua medida angular, chegamos a um ponto no céu chamado PÓLO CELESTE SUL. Partindo desse ponto, uma nova linha imaginária perpendicular ao horizonte nos encaminhará ao ponto cardeal sul.
E, ainda usando o CRUZEIRO como ponto de partida, agora usando o braço menor da cruz como referência . . . caminhando para o leste, encontramos o semicírculo de estrelas que formam a cauda do ESCORPIÃO.

A partir delas podemos ver cerca de cinco estrelas em semicírculo e outras cinco originando uma letra "S" imperfeita no céu. Na extremidade oposta, a cabeça do escorpião é representada por três estrelas.

Estas observações a olho nu devem sempre ser acompanhadas das referências das CARTAS CELESTES, que são como mapas para uma viagem ao passado. Primeiro pelos símbolos culturais e pelas hipóteses cosmológicas que elas retratam. Depois pelas longas viagens que a luz das estrelas realiza para chegar até nós. Vamos voltar ao Cruzeiro do Sul e para as estrelas Alfa e Beta do CENTAURO, as duas estrelas brilhantes a leste do cruzeiro. ALFA de CENTAURO está a aproximadamente quatro anos-luz da Terra. Já BETA do CENTAURO está a 490 anos-luz de nós.

Só pra confirmar que o conceito de constelação não tem nada ver com proximidade física das estrelas, basta observar a viagem da luz que vem de GAMA do CRUZEIRO, que leva 220 anos pra ser visível por aqui, e a luz que vem de DELTA do CRUZEIRO, que leva 570 anos para atingir a retina de um observador aqui na Terra.

Ou seja . . . esses registros de corpos celestes falam de eventos ocorridos em momentos distantes no tempo e no espaço, e que os gregos, com sua proverbial imaginação mitológica, povoaram de deuses e semideuses.

Por exemplo: o ESCORPIÃO é uma das constelações mais parecidas com o animal que representa. Olhando os desenhos mitológicos das constelações, fica fácil viajar nas lendas.

ARTEMIS e ORION estavam em graves conflitos, e a deusa da caça mandou o ESCORPIÃO para ferroar mortalmente o calcanhar de ORION. Vítima fatal dessa história de amor, o semideus morreu. É fácil identificá-lo no céu pelas TRÊS MARIAS, que para os gregos é o CINTURÃO DOURADO desse semideus. Só que pra nós, que vivemos no hemisfério sul, ORION está invertido . . . assim como outras constelações. É por isso que às vezes fica difícil identificar as representações das constelações.
Imagem constelação
Escorpião

No céu do hemisfério sul, a VIA LÁCTEA é muito mais brilhante que no hemisfério norte. Talvez seja por isso que os índios brasileiros, os incas, as culturas ancestrais da América, usavam como referência não só as estrelas mais brilhantes, mas também as regiões escuras do céu.

Próximo ao CRUZEIRO DO SUL há uma dessas regiões escuras, que ficou conhecida por aqui como SACO DE CARVÃO, depois "cristianizada" para TÚMULO DE JESUS, que seria levado da cruz para este "santo sepulcro" celeste.

Imagem Jaguar
"Constelação" do Jaguar
ALFA e BETA do CENTAURO representam para a cultura indígena brasileira os olhos de um poderoso JAGUAR dominando uma outra região escura do céu, que tem um formato semelhante com o animal.

Já os Incas viam nessa mancha da VIA LÁCTEA uma LHAMA, com seu jeito doce e persistente. Mas, não foram as culturas do hemisfério sul que prevaleceram no ocidente, na ciência e na astronomia.

Para a UNIÃO ASTRONÔMICA INTERNACIONAL os olhos do jaguar são as patas do CENTAURO, ALFA e BETA da constelação.

Todas essas viagens da imaginação e registros científicos estão marcados nos círculos das CARTAS CELESTES, limitadas pelo horizonte visual da localização escolhida para a confecção da carta. Os pontos cardeais norte, sul, leste e oeste também estão presentes. O céu nas CARTAS CELESTES se encontra como que rebatido. Para observá-lo corretamente, nós temos de fazer coincidir o "sul"com o ponto cardeal "sul" e aí, para olhar o céu, a carta tem de ficar invertida.

Daria pra pensar num número infinito de cartas celestes, porque a Terra vai girando em sentido contrário e as estrelas mudam de posição a cada instante. Mas, as mudanças mais significativas são em relação às estações do ano. Além disso, as cartas ainda trazem normalmente informações sobre magnitudes e código visual para os diferentes corpos celestes.

As cartas celestes são representações planas do GLOBO CELESTE. Os astrônomos do século XVI projetaram uma peça com a intenção de dar uma visão tridimensional do globo celeste, que se chama ESFERA ARMILAR.

Nelas, nós podemos encontrar as principais linhas imaginárias do céu representadas: o equador celeste, o paralelo, a eclíptica, o meridiano celeste local e o plano do horizonte. Ah . . . claro! também tem a Terra representada no centro. As esferas armilares eram excelentes para estudar "coordenadas astronômicas" e também davam uma referência completa para os astrônomos estudarem o céu em tridimensão. Imagem Esfera armilar
Esfera armilar

Era só imaginar as constelações dispostas flutuando no espaço, como se as distâncias interestelares fossem desprezíveis, e fazer de conta que o Sol não estava nem aí. Mas . . . ELE ESTÁ AÍ ! ! E a sua luz é quase tudo pra nós. . . Sem a luz do Sol não haveria vida na Terra, nem colecionadores de estrelas. Portanto, qualquer colecionador de estrelas que se preze tem de conhecer um pouco sobre o Sol. Boa parte das observações do Sol se faz com a projeção de sua imagem captada por lunetas protegidas por filtros, que atenuam as suas radiações nocivas. E a primeira coisa que as pessoas percebem são as manchas solares. As manchas solares aparecem por contraste - elas são mais frias do que o restante da superfície solar.

Imagem ´bolha´
Projetando as sombras do Sol
Tudo ocorre por causa de um complexo campo magnético que fica acompanhando a rotação do Sol. Quando esse campo surge na superfície, aquela região fica mais fria. É assim que a gente vê as manchas. Elas evoluem sozinhas ou em grupos.

Utilizando "bolhas acrílicas" devidamente posicionadas, é possível fazer o acompanhamento da trajetória diurna do Sol; definir o meridiano local; o meridiano celeste; o equador celeste e projetar os pólos celestes.

O Sol, além de uma poderosa fonte de energia, é também boa fonte de informações. A partir do conhecimento de suas características físicas foi possível começar a levantar hipóteses sobre a constituição de estrelas e demais corpos celestes.

Se nós somarmos as massas dos planetas, seus satélites, os asteróides e os cometas, enfim, quase todos os corpos do sistema solar, vamos ficar com 0,2%, contra 99,8% da massa que estará concentrada no Sol.

Apesar de tudo isso, ele é apenas mais uma estrela no nosso céu. Vamos voltar a usar a imaginação...e "retirar o Sol do céu" de um dado instante de um dia de inverno aqui no hemisfério Sul da Terra. O que veríamos seria o céu típico de um dado instante de uma noite de verão.

É fácil de entender: imagine que o Sol está parado lá no centro do sistema solar e que a Terra vai girando em torno dele. A cada ano a Terra completa uma volta. Nós estamos aqui olhando as estrelas típicas do inverno. Do outro lado, o Sol impede que a gente veja as estrelas do verão. Mas, quando 6 meses se passam, a situação se inverte: o Sol está na frente das estrelas de inverno, e nós estamos vendo as estrelas de verão. Essa situação vai acontecendo sucessivamente ao longo de todos os anos.

Uma boa maneira de entender esses movimentos do céu é através da fotografia astronômica. Uma câmera fotográfica simples, que faça chapas com exposição prolongada, vai registrar as linhas circulares dos movimentos que as estrelas fazem em torno do PÓLO CELESTE SUL. Na verdade, quem se movimenta é a Terra, as estrelas estão praticamente paradas. A Terra é que gira e cria a ilusão do movimento.

Talvez a melhor opção didática para a apreensão desses movimentos do céu, do Sol e das estrelas da Terra com o globo celeste seja o PLANETÁRIO. Todo colecionador de estrelas gostaria de ter um projetor planetário em seu escritório. Ele simula o aspecto do céu de qualquer lugar da Terra, no passado, no presente ou no futuro. As imagens aceleradas do movimento dos planetas e seus satélites, além de encantadoras, ajudam a clarear muitas dúvidas de estudantes e curiosos de todas as idades.

As atividades de campo em ASTRONOMIA ligadas à educação são caminhos de aventura e religação com a natureza e descoberta. Olhar para o céu faz a gente repensar as coisas. Exercita uma visão mais aberta do universo e do mundo competitivo em que vivemos.

Os observatórios dedicados ao ensino de astronomia oferecem elementos técnicos e condições de aproximação de um conhecimento milenar que se revitaliza com o progresso da tecnologia.
Os observatórios a olho nu dos Incas, na América Latina, o Stone Hedge da Europa e as fendas nas pirâmides egípcias são alguns dos precursores dos planetários de hoje.

O Observatório a olho nu, construído nas ruínas de Abaribebê, em Peruíbe (litoral sul de São Paulo), revigora essa tradição colocando à disposição de grupos de estudantes uma oportunidade de reconstruir sua visão cosmológica a partir das simbologias culturais ancestrais e de um acompanhamento científico atual monitorado. Os instrumentos astronômicos guardam estreita relação com a cultura e a tecnologia da época em que foram construídos.
Imagem Abaribebê
Observatório de Abaribebê

O MUSEU DE ASTRONOMIA do Rio de Janeiro revive um pouco da história da pesquisa brasileira nessa área.

O trabalho educativo do OBSERVATÓRIO NACIONAL complementa essa viagem com equipamentos de observação abertos ao público estudantil.

Pra quem já avançou o suficiente na astronomia básica e decidiu que esse é o seu caminho profissional, a FACULDADE DE ASTRONOMIA da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no Morro do Valongo, é uma das opções para a formação acadêmica, mas o caminho mais difundido no Brasil para a formação acadêmica em ASTRONOMIA é o da PÓS-GRADUAÇÃO.

A partir de um curso de física ou matemática, a pós-graduação oferece condições de optar por um dos muitos campos de pesquisa da ASTRONOMIA: a RÁDIO ASTRONOMIA, a ASTRONOMIA OBSERVACIONAL, ASTROFÍSICA, COSMOLOGIA e muitas outras especializações que são resultado de muito trabalho e dedicação em busca do conhecimento.

Pode ser que a partir de uma visita a um planetário ou observatório, ou ainda da participação de um grupo de observação a olho nu, surja algum ASTROFÍSICO DO FUTURO, ou alguma RADIOASTRÔNOMA. Isso seria ótimo! Mas, a característica mais importante desse tipo de atividade é o desenvolvimento da capacidade de observação da natureza.

A possibilidade do reconhecimento de novos horizontes, novas relações entre o homem e o universo, o homem e seu próprio mundo.



ENSINAR E APRENDER

        1 - O professor 
        pode e deve estimular a observação do céu e as referências 
        que ela cria para a nossa localização sobre a Terra. Esta 
        atividade é um ponto de partida para as "grandes viagens", e preferencialmente 
        destinada aos alunos de 5a série. Para começar, o professor 
        precisa das CARTAS CELESTES, que podem ser obtidas em alguns livros (ver 
        bibliografia) ou revistas especializadas (importadas), ou ainda nas Sociedades 
        Astronômicas, às quais é possível se filiar 
        e conseguir orientação para professores e alunos no manuseio 
        das cartas e outros instrumentos. 
Além das informações de caráter científico, o reconhecimento das estrelas e constelações cumpre importante papel no resgate cultural das lendas brasileiras e mitologias envolvidas, bem como na valorização das relações entre as diferentes formas de observação.

        2 - Uma outra 
        atividade muito instigante é o estudo das sobras provocadas por 
        "gnomons" (hastes com tamanhos proporcionais às estaturas dos alunos, 
        fincadas no chão), e a conseqüente avaliação 
        dos movimentos do Sol durante um dia, uma semana... um ano. Vale a lembrança 
        de que foi com método de triangulação a partir de 
        sombras que o astrônomo grego Hiparco de Nicéia calculou, 
        com bastante precisão para a época, a distância da 
        Terra à Lua.