volta - Alô Escola

 
Índice de Programas

Índice fauna e flora

Ensinar e Aprender


As marés do Brasil

A ilha de Trindade tem alguns dos mais impressionantes costões rochosos dos mares brasileiros. Situada a mais de mil quilômetros da costa, numa zona em que o mar apresenta um dinamismo intenso, Trindade tem penhascos com rochas de diferentes características, onde se fixam várias espécies animais e vegetais que vivem na água quente e de alta salinidade da corrente do Brasil.

"A ilha de Trindade tem cerca de 3 milhões de anos e é a mais jovem de todas as ilhas oceânicas brasileiras. Ela situa-se no extremo oriental da chamada "cadeia Vitória/Trindade". Conforme nos aproximamos do continente sul-americano, vai crescendo a idade desses antigos vulcões. Ou seja, em Vitória eles são bem mais antigos do que na região da ilha de Trindade. A ilha se ergue numa zona abissal do oceano Atlântico.

Foto 3
Trindade (ES): paraíso brasileiro no Atlântico
Não muito longe dela existem profundidades de até 5.800 metros. É uma espécie de pináculo, do qual apenas 620 metros saem para fora da água.

A última atividade vulcânica cessou há aproximadamente 5 mil anos. A vegetação atual ainda conta com algumas espécies endêmicas, embora em número reduzido. O Cyperus Atlanticus é uma das duas espécies mais comuns do que chamamos de 'capim da ilha'. A diferença para o capim do continente é que o de Trindade pertence a outra família botânica, que não tem grande capacidade de regeneração e por isso não é adequado ao pastoreio. Os rebanhos conseguem causar a erosão do solo, como acontece também em outras ilhas oceânicas, entre elas o Havaí e o Taiti.

Trindade já teve um solo orgânico com profundidade aproximada de 6 metros. Infelizmente, com a erosão e a remoção da vegetação, isso se perdeu. Um problema que começou no início do século XVIII, quando o astrônomo inglês David Kallen trouxe para a ilha o primeiro casal de caprinos."
Depoimento do professor Rui Alves
biólogo / botânico do Museu Nacional da UFRJ

Outra característica da ilha de Trindade - e também de sua vizinha, a ilha de Martim Vaz - é que, por sua localização em latitudes, semelhante à de Vitória, capital do Espírito Santo, apresenta nos seus costões uma amplitude relativamente pequena na zona entre marés.

Essas idéias ficam mais claras quando a gente olha para o conjunto da costa brasileira. Ela apresenta uma grande extensão litorânea, com variações de latitude que vão de áreas próximas ao equador até bem ao sul da América do Sul. E, quanto mais ao sul, menores as amplitudes entre a maré cheia e a maré baixa.

As extensas praias do litoral sul sofrem variações pequenas nos ciclos de marés baixas e de no máximo 1,5 metro nos períodos de lua cheia, enquanto nas regiões próximas ao equador a amplitude das marés pode ultrapassar quatro metros.
Foto 4
Alinhamento Lua-Terra-Sol:
extremos das marés

Isto se deve ao fato de o mar ser diretamente afetado pelas posições relativas da Terra, da Lua e do Sol. A ação gravitacional da Lua provoca um movimento cíclico da parte fluida da Terra, incluindo as águas e a atmosfera. Nos momentos de alinhamento entre Sol, Lua e Terra, ou seja, nas luas cheias e novas, as marés atingem seus extremos (na arte à esquerda, saliências foram acrescentadas à figura da Terra para evidenciar a atração gravitacional entre os três corpos celestes).


É por essas e por outras que os homens do mar criaram um vínculo tão forte com a Lua, com seu temperamento mutante, feminino, misterioso.

O dia e a noite: mundos diferentes no mar

E se as marés modificam o ritmo da vida no mar, a noite - a ausência de luz - provoca alterações profundas na população marinha.

Durante o dia, nas bases dos penhascos, onde as rochas formam tocas, espaços protegidos, onde pedras soltas criam um cenário irregular, há um tipo de atividade, um padrão de comportamento para peixes, cardumes e crustáceos.

À noite, tudo se modifica. Os hábitos são diferentes e a população muda completamente. Há muito mais crustáceos saindo para se alimentar de algas, e peixes saindo de seus esconderijos em busca de outros peixes.

Além do som da respiração dos mergulhadores, é possível ouvir um som intenso, como se fosse uma fogueira crepitando. Uns estalidos constantes. São as cracas, os mexilhões, os habitantes fixos mais conhecidos dos costões rochosos. As cracas projetam seus apêndices abdominais para fora da carapaça. São uma espécie de cílios que formam um filtro, um tipo de peneira apropriada para capturar alimento. É esse movimento que produz o intermitente estalido noturno.

Ao contrário do que acontece nas praias, no litoral arenoso, onde a vida existe dentro do sedimento, as comunidades das rochas são bastante visíveis porque a maioria dos indivíduos vive na superfície. Além disso, comparados a outros ambientes do litoral, os costões rochosos são mais densamente populosos.

PÁGINA ANTERIOR   PRÓXIMA PÁGINA