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A ilha de Trindade tem alguns dos mais impressionantes costões rochosos dos mares brasileiros. Situada a mais de mil quilômetros da costa, numa zona em que o mar apresenta um dinamismo intenso, Trindade tem penhascos com rochas de diferentes características, onde se fixam várias espécies animais e vegetais que vivem na água quente e de alta salinidade da corrente do Brasil.
A última atividade vulcânica cessou há aproximadamente 5 mil anos. A vegetação atual ainda conta com algumas espécies endêmicas, embora em número reduzido. O Cyperus Atlanticus é uma das duas espécies mais comuns do que chamamos de 'capim da ilha'. A diferença para o capim do continente é que o de Trindade pertence a outra família botânica, que não tem grande capacidade de regeneração e por isso não é adequado ao pastoreio. Os rebanhos conseguem causar a erosão do solo, como acontece também em outras ilhas oceânicas, entre elas o Havaí e o Taiti. Trindade já teve um solo orgânico com profundidade
aproximada de 6 metros. Infelizmente, com a erosão e a remoção
da vegetação, isso se perdeu. Um problema que começou
no início do século XVIII, quando o astrônomo inglês
David Kallen trouxe para a ilha o primeiro casal de caprinos."
Outra característica da ilha de Trindade - e também de sua vizinha, a ilha de Martim Vaz - é que, por sua localização em latitudes, semelhante à de Vitória, capital do Espírito Santo, apresenta nos seus costões uma amplitude relativamente pequena na zona entre marés. Essas idéias ficam mais claras quando a gente olha para o conjunto da costa brasileira. Ela apresenta uma grande extensão litorânea, com variações de latitude que vão de áreas próximas ao equador até bem ao sul da América do Sul. E, quanto mais ao sul, menores as amplitudes entre a maré cheia e a maré baixa. As extensas praias do litoral sul sofrem variações pequenas nos ciclos de marés baixas e de no máximo 1,5 metro nos períodos de lua cheia, enquanto nas regiões próximas ao equador a amplitude das marés pode ultrapassar quatro metros.
É por essas e por outras que os homens do mar criaram um vínculo tão forte com a Lua, com seu temperamento mutante, feminino, misterioso.
E se as marés modificam o ritmo da vida no mar, a noite - a ausência de luz - provoca alterações profundas na população marinha. Durante o dia, nas bases dos penhascos, onde as rochas formam tocas, espaços protegidos, onde pedras soltas criam um cenário irregular, há um tipo de atividade, um padrão de comportamento para peixes, cardumes e crustáceos. À noite, tudo se modifica. Os hábitos são diferentes e a população muda completamente. Há muito mais crustáceos saindo para se alimentar de algas, e peixes saindo de seus esconderijos em busca de outros peixes. Além do som da respiração dos mergulhadores, é possível ouvir um som intenso, como se fosse uma fogueira crepitando. Uns estalidos constantes. São as cracas, os mexilhões, os habitantes fixos mais conhecidos dos costões rochosos. As cracas projetam seus apêndices abdominais para fora da carapaça. São uma espécie de cílios que formam um filtro, um tipo de peneira apropriada para capturar alimento. É esse movimento que produz o intermitente estalido noturno. Ao contrário do que acontece nas praias, no litoral arenoso, onde a vida existe dentro do sedimento, as comunidades das rochas são bastante visíveis porque a maioria dos indivíduos vive na superfície. Além disso, comparados a outros ambientes do litoral, os costões rochosos são mais densamente populosos.
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