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OS MARES E O HOMEM

Imagem Barco
No mar e nos rios, a história do conhecimento
(barco no Rio Grande, RS)
A presença humana não é apenas sinônimo de devastação. Toda a história do conhecimento segue as trilhas do mar.

A navegação começou nos rios e alcançou os estuários, abrindo as portas dos oceanos para o comércio, as grandes viagens, as grandes descobertas.

A origem do Brasil como nação está ligada ao mar, às habilidades dos navegantes de além-mar, aos conhecimentos das tribos litorâneas, dos caiçaras de todas as praias de armação do país. Cada um tem sua própria impressão sobre o mar.

"O mar pra mim é um... um grande sonho..."
Kleber Grübel, oceanólogo
Projeto Nema, RS

"Pra mim, o mar é vida. É o que tem de mais importante pra mim. Eu dependo dele, eu sobrevivo dele."
Nelço Justo, pescador
Torres, RS

"O mar, pra mim, é violento. Tem pescador que não acha, mas eu acho o mar muito perigoso".
Áureo Benjamin, pescador
Arraial do Cabo, RJ

"Pra mim, a primeira idéia é que o mar é muito misterioso... Que tem tanta coisa no fundo do mar que a gente não tem idéia mesmo."
Maria Emília Morete, bióloga
Projeto Baleia Jubarte

"O mar pra mim... eu gosto dele. Também nunca abusei com ele. Eu respeito. O mar é meu amigo, sabe. Quando ele tá muito bravo e eu entro nele, ele fica mansinho."
Egílio Xavier Mendes, pescador
Cananéia, SP

Todos os povos primitivos criaram lendas e mitologias onde a formação das águas desempenha um papel essencial. Os ancestrais do homem viveram, provavelmente, longe do mar, daí talvez o espanto de muitos diante da imensidão dos oceanos. Mas há mais de 8 mil anos o Mar Egeu já recebia um intenso fluxo comercial.

imagem satlite mar Egeu
Mediterrâneo e Egeu: intenso fluxo comercial

Foi certamente com Aristóteles (384-322 a.C.) que surgiu o interesse científico semelhante ao que entendemos hoje. Aristóteles elaborou um catálogo de animais marinhos do Mar Mediterrâneo e levantou questões sobre a origem das marés, das ondas e do sal.

CONHECER PARA PRESERVAR

A ciência da oceanografia, apesar de ter suas raízes na Antigüidade, desenvolveu-se de forma efetiva no período moderno. Os cientistas e navegadores, cada um com suas prioridades, desbravaram os oceanos comerciando, pesquisando... E durante séculos o que se buscava era o conhecimento para a exploração. Só mais recentemente é que surgiu o conceito de conhecimento para a preservação.

Imagem estuário
Recife (PE): estuário densamente povoado

"Eu acredito que a oceanografia brasileira teve um progresso muito bom, de certo modo forçado pelas exigências de novas tecnologias de preservação de áreas ao longo da costa, zona exclusiva de pesca. Isso deu um novo ânimo, trazendo recursos para novos projetos. A formação naturalística do antigo curso de História Natural teve uma influência bastante sensível nos rumos da oceanografia brasileira. A ecologia estava intrínseca, era instintiva nos conceitos dos mestres que vieram da Europa. Como a ciência estava sendo divulgada há muito mais tempo na Europa, os pesquisadores europeus estavam sentindo instintivamente a importância de preservar o meio ambiente e de descobrir métodos não predatórios para a exploração."
Prof. Dr. Edmundo Nonato, oceanógrafo
Depto. de Oceanografia Biológica - USP

A degeneração dos ambientes estuarinos, onde os manguezais desempenham papel fundamental, foi responsável pelos primeiros sinais de alerta. Hoje, boa parte dos trabalhos é orientada pelos conceitos de manutenção ou recuperação do equilíbrio ecológico.

"O homem foi se apoderando dos estuários. São áreas protegidas, com farto recurso alimentar, e por isso serviam de abrigo às naus, aos primeiros navegadores que aqui foram chegando. Os navegadores foram ocupando desenfreadamente os estuários, com as tecnologias de suas épocas. Esse tipo de ocupação foi removendo a cobertura vegetal, foi colocando mais sedimento disponível. Hoje nós temos problemas não só de esgotos, mas também de comprometimento de atividades do próprio homem. Quer dizer, o homem está criando limites ao seu próprio desenvolvimento.

imagem Baa de Guanabara
Baía de Guanabara (ao fundo): assoreada

Na cidade do Rio de Janeiro, na época dos primeiros povoados, todo o entorno da Baía de Guanabara era rico, todo bordado por manguezais. A expansão urbana foi ocupando paulatinamente as áreas de manguezais, com a área petroquímica, a refinaria Duque de Caxias e até mesmo o aeroporto internacional do Galeão, que também ocupa uma franja de manguezal. O fundo da baía hoje em dia é assoreado.

Nós fomos perdendo este filtro biológico natural que é o manguezal, que retém os sedimentos, e fomos aumentando as áreas de lixão. No Rio de Janeiro nós temos que nos planejar para conviver com isso e saber o que nós queremos. Eu vejo com tristeza as ilhas onde eu passava os fins de semana na Baía de Guanabara, todas transformadas em depósitos de material de origem de hidrocarbonetos. Todas elas tornaram-se grandes depósitos."
Profª Dra. Yara Schaffer Novelli, oceanógrafa
Depto. de Oceanografia Biológica - USP

Nem mesmo um dos mais conhecidos cartões postais do mundo conseguiu impressionar suficientemente a população, os dirigentes e a sociedade para uma atitude que prevenisse a deterioração de um dos estuários mais representativos da história do Brasil.

Pela barra guarnecida pelo Pão de Açúcar passou grande parte da história da navegação brasileira, desde as naus dos desbravadores até os mais modernos equipamentos que a Marinha utiliza nos serviços do mar.

A Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha é responsável por todas as cartas náuticas que orientam os navegadores na costa brasileira. São os navios especializados da DHN que estão realizando os levantamentos batimétricos necessários ao estabelecimento real de nossas fronteiras marítimas.

O Centro Cultural da Marinha, criado num antigo armazém restaurado na área portuária do Rio de Janeiro, cumpre dupla função educativa: atrai um grande público para conhecer um pouco sobre o mar e, pela sua própria localização, colabora para a revitalização desse espaço.

"O Espaço Cultural da Marinha tem três módulos permanentes. Um deles é a galeota de D. João VI, que foi inteiramente restaurada. A partir dela nós contamos toda a história da navegação, desde que o homem começou a usar troncos de árvores para cruzar rios e pântanos até a navegação que se utilizava antes do aparecimento do satélite.

imagem Baa de Guanabara
Centro Cultural da Marinha (RJ)
O segundo módulo está sempre em expansão, que é a arqueologia subaquática. Tudo o que nós temos retirado do fundo do mar, as preciosidades, tudo que for resgatado e que tiver interesse histórico náutico virá para cá. Por isso nós temos um projeto grande para ampliar essa seção de arqueologia. O terceiro módulo diz diretamente ao Brasil, porque uma embarcação que serve para navegar na costa do Maranhão e do Pará não é a mesma que serve para navegar na costa do Rio Grande do Sul, por exemplo. Nenhum outro país tem essa diversidade enorme de tipos de embarcações regionais que nós temos."
Cte. Max Justo Guedes,
diretor do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha - RJ

Nos últimos anos, graças às pressões de grupos ambientalistas nacionais e internacionais, estão sendo implementados projetos de despoluição da Baía da Guanabara. O mesmo está acontecendo na Baía de Todos os Santos e na região de Santos e Cubatão. É importante que essa preocupação se estenda a todos os estuários do país.
Imagem Baa de Todos os Santos
Despoluição: na Baía de Todos os Santos (BA)...
Imagem cidade de Santos
... e na Baixada Santista (SP)


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