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Os estuários

Imagem estuário
Em Pernambuco, encontro entre o rio e o mar

Para os especialistas, o termo "estuário" é utilizado para indicar a região interior de um ambiente costeiro onde ocorre a mistura de água doce com água do mar.

O homem do mar não está o tempo todo pensando nesse conceito e sequer faz conjecturas sobre a origem do estuário. Mas ele conhece e respeita as leis de navegação da barra do rio.

"O prático do navio era tio do meu pai e ele saía à barra com canoa a remo, sabe, pra você ver a coragem do cara. Ele recebia o telegrama do navio avisando a hora da chegada. Então do Abrigo (Ilha do Bom Abrigo, Cananéia) pra cá ele que trazia o navio. Tinha uma canoa boa, canoa própria para aquilo. Ele e mais dois ajudantes. Então começava a amanhecer o dia, e eram os três numa canoa a remo pra sair à Barra. Às vezes o tempo estava ruim, mas trato era trato. O camarada arriscava até a vida.
Eu já saí quatro vezes de canoa a remo, pra pescar lá fora. Eu e mais dois camaradas. Valia a pena, agora não vale mais. Na época eu pegava mesmo, matava o que queria. Em prazo de duas horas você fazia a pescaria. Agora não. É barco, aparelho em cima dos peixes dias e noites. Sem respeitar (o jeito do mar).

Cananéia (SP): barco de pesca artesanal
Até que o mar é rico. Você vê: começa o ano, termina o ano, o pessoal batendo dia e noite... E quando ele vai, sempre traz alguma coisa. É riquíssimo o mar."
Depoimento de Egílio Xavier Mendes
pescador em Cananéia, SP.

Os estuários são ecossistemas extremamente importantes e responsáveis pelo equilíbrio e manutenção dos recursos marinhos. São áreas de reprodução, crescimento, alimentação e refúgio para inúmeras espécies de peixes, crustáceos e moluscos, capturados pela pesca artesanal e industrial.

Até recentemente, era tida como certa a idéia de que o mar territorial brasileiro é imensamente rico em recursos pesqueiros e não era comum a preocupação de preservá-los. Os prejuízos das indústrias com a pesca e processamento da sardinha e de outras espécies de valor comercial mostram que essa riqueza pode ter seus limites. O baixo volume da pesca atual confirma que os antigos pescadores tinham razão quando avisavam que uma hora a fonte ia secar.

"Tem umas pessoas que não sabem preservar o dia de amanhã. Elas querem acabar com o que têm.. Tem gente que não gosta de preservar, gente que, se puder, acaba com tudo."
Depoimento de Egílio Xavier Mendes
pescador em Cananéia, SP.

"Muitas vezes tem barco da América do Sul toda aqui. Já foram pegos aqui barcos até da Noruega. Eles vêm porque sabem, eles têm o mapa do mundo todo. Hoje, a navegação é por satélite. Eles então capturam a larva, praticamente, do peixe. É um peixe pequeníssimo. No caso da nossa criação, da lula principalmente, eles pegam aqui a lula miúda, não dá tempo de ela crescer e procriar. Nossa pesca aqui fracassou justamente por causa desses barcos industrializados que chegam aqui."
Depoimento de Bado
pescador em Arraial do Cabo, Cabo Frio, RJ.

AMBIENTE IDEAL PARA OS PEIXES

A pesca industrial está em transformação no Brasil. As pesquisas mostram que, além de poucas zonas de alta produtividade - como as áreas de ressurgência em Cabo Frio e de convergência na região de Rio Grande (litoral sul do Rio Grande do Sul), as maiores fontes de produção pesqueira são os estuários.

Os estuários apresentam grandes variações de salinidade, temperatura, turbidez e concentração de oxigênio dissolvido.
Imagem correntgrafo
Correntógrafo: análise da corrente marítima

"Esse equipamento é um correntógrafo, que serve para medir a velocidade e a direção da corrente que estiver passando no local. Ele tem uma bússola interna para indicar a direção e é equipado com 3 sensores: um de temperatura, um de salinidade e um de profundidade. De 30 em 30 segundos ele dá um leitura desses parâmetros. E, à medida que a gente vai baixando o equipamento na água, ele faz nova leitura.

Outro equipamento que usamos é uma rede menor do que a utilizada na pesca comercial. O intuito é capturar peixes pequenos, na tentativa de comprovar a importância dessas áreas estuarinas bordeadas por mangue como uma área de reprodução das espécies marinhas. Muito se fala a esse respeito, mas a comprovação depende de determinado tipo de coleta.

Imagem rede
Rede pequena: reprodução no estuário
Uma das idéias do nosso trabalho é obter uma amostra de todas as classes de comprimento de peixes que se utilizam dessa região durante parte da vida, principalmente durante a fase reprodutiva."
Ricardo Lopes Crispino
Biólogo/Oceanógrafo - IOUSP

Ou seja, para obter o alimento presente no estuário, os peixes e outros animais marinhos têm de gastar uma boa quantidade de energia para se adaptar às constantes mudanças nas condições desse ambiente.

"O baiacu é um peixe muito comum aqui no sistema estuarino lagunar. Os pescadores têm uma certa repulsa por esse peixe, que não tem valor comercial no Brasil mas que é um elo importante da cadeia alimentar, é um componente bastante importante no sistema.

Há também outros peixes, peixes dominantes, como os bagres. Essa espécie tem cuidado parental, ela cuida da prole dela. A fêmea ovula, o macho libera os espermatozóides e na água ocorre a fecundação. Depois da fecundação, o macho empurra esses ovos dentro da boca, dentro de uma cavidade bucal bastante grande, onde cabem cerca de 12, 13 ovos.

Uma outra espécie já tem importância comercial: a pescada. Aparentemente - estamos estudando isso - as fêmeas entram para desovar dentro do estuário, para que a prole tenha proteção dentro dessas raízes do mangue. Os filhotes vão ter uma disponibilidade de alimento considerável.

Tem uma outra espécie de pescada, o canganguá, que também é bastante significativa no ecossistema estuarino. O canganguá serve de alimento para os robalos, os botos, os biguás, as garças... Quer dizer, a complexidade da cadeia alimentar é muito rica.

Existe um problema de se viver no estuário, que é a variação de salinidade. A salinidade gera um déficit, um gasto energético bastante considerável para o animal, mas que é compensado pela grande disponibilidade de alimentos. E é importante dizer que toda essa coleta, esse nosso trabalho, vai gerar informações bastante importantes do ponto de vista ambiental, de monitoramento do meio ambiente. Esses estudos irão fornecer uma idéia de como explorar de forma mais racional estes recursos naturais."
Nelson Antonio Leite Maciel
Biólogo/Oceanógrafo - IOUSP

Os peixes são sem dúvida o grupo de organismos que melhor se adapta a essas condições, e é graças a essa resistência que ainda encontramos uma grande riqueza de cardumes nas imagens submarinas.

Estudos indicam que 70% das espécies potencialmente comercializadas se utilizam do refúgio dos estuários em algum estágio de seu desenvolvimento.

Imagem baiacu
Baiacu: refúgio nos estuários

Esta riqueza atraiu não só peixes e animais marinhos, mas comunidades humanas em todo o planeta. Cerca de dois terços das grandes cidades do mundo estão localizados nas proximidades dos estuários. No Brasil, 60% da população ocupa áreas de ecossistemas estuarinos, onde estão nada menos que 12 áreas metropolitanas de capitais de estados.

São toneladas e toneladas de dejetos industriais, esgoto sem tratamento, lixo, acidentes de manejo de petróleo... Poluentes que vão acabar no mar, principalmente através dos estuários.

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