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. "São Paulo antes das bienais era uma cidade acostumada ao academicismo. A arte moderna nos educou".
Ciccillo Matarazzo Sobrinho.

As bienais começaram como grandes exposições internacionais organizadas pelo Museu de Arte Moderna. A inspiração de Ciccillo veio da Bienal de Veneza, onde representou o Brasil em 1948. A França foi a primeira a aderir, sob influência direta de Yolanda Penteado. Depois foi a vez da Itália, somando ao final dezenove países e cerca de 1.800 obras. Só em 1962 as bienais seriam desvinculadas do Museu de Arte Moderna, surgindo a Fundação Bienal de São Paulo.

. "O crítico Paulo Mendes de Almeida disse, em certa ocasião, que o benefício que as bienais trouxeram só é comparável ao malefício delas decorrentes. Os artistas ficavam de tal modo bloqueados ou impressionados pelas mensagens e inovações, que nas bienais seguintes a gente via repetida a tendência dominante na bienal anterior".
Depoimento de Aracy Amaral.

A 1ª Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo foi inaugurada em outubro de 1951. Chovia muito e a disputa por espaço entre os cerca de 5 mil convidados obrigou o ministro das Relações Exteriores a entrar pela janela. A avenida Paulista, endereço da exposição, transformou-se em centro mundial das artes.

. "Mas o fato é que as bienais, especialmente, criaram um contexto de debates, de discussão de informação que foi de uma importância extraordinária. A 1ª Bienal premiou Max Bill, com a Unidade Tripartida, e o Max Bill foi um dos formuladores da arte concreta".
Depoimento de Augusto de Campos.

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MAX BILL

"Unidade Tripartida" - 1948/49
Aço inoxidável
. "Essa peça é emblemática, é um divisor de águas. Significa uma espécie de germe, de semente do momento de emancipação das nossas artes plásticas. Tanto é assim que eu acho que o Max Bill não é um artista suíço-alemão, é um artista brasileiro".
Depoimento de Agnaldo Farias.

. "Foi uma verdadeira festa de informação sobre os movimentos artísticos de vanguarda do início do século. Havia nessa bienal uma ótima representação do cubismo e do futurismo italiano".
Depoimento de Augusto de Campos.

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PABLO PICASSO

"Guernica" - 1937 (Detalhe)
Óleo s/ Tela
A organização da 2ª Bienal mobilizou Yolanda Penteado. Convidado por ela, Pablo Picasso participou com 52 obras, entre as quais Guernica, um dos mais famosos libelos contra a guerra. Picasso ganhou uma sala especial. Outras salas foram reservadas aos mágicos Paul Klee e Calder. Pietr Mondrian também ganhou espaço especial para mostrar o caminho da razão, a matemática.

O escultor inglês Henry Moore veio pessoalmente e foi premiado. Esta bienal marcou a transferência da primeira sede do museu, na rua Sete de Abril, para o Parque do Ibirapuera, projetado por Oscar Niemeyer. A construção fazia parte dos festejos do IV Centenário da cidade de São Paulo, organizados por Ciccillo.

. "A Bienal de São Paulo foi um evento que realmente marcou nossas vidas... dos críticos, artistas e historiadores da arte... Nós nos envolvemos nesse ambiente tão cheio de vibração que existia nos anos 50. Mas isso não ficou apenas na 1ª Bienal. Esse clima perdurou nas bienais que vieram depois. Talvez isso exista até hoje".
Depoimento de Aracy Amaral.

. "Uma coisa é o Brasil dos anos 50, desatualizado, fechado à produção que estava acontecendo no plano internacional. Então a importância da Bienal é meio até uma idéia modernista de acertar o passo, de tirar nossos artistas velhos vícios, visões rançosas, mesmo xenofóbicas, como se a arte não fosse um problema colocado a todos igualmente".
Depoimento de Agnaldo Farias.

As bienais não só resgataram o país do degredo cultural como deixaram, sob forma de prêmios de aquisição, várias obras para o acervo do museu. Contribuíram, sobretudo, para encorpar consideravelmente a coleção de trabalhos em papel, que representa quase 50% do acervo.


. "São poucos os lugares onde você encontra uma concentração tão grande e de obras tão boas como o MAC. É realmente um privilégio a gente ter uma gravura de Käthe Kollwitz. Ela é a mãe, a avó, a guru do expressionismo dos artistas da minha geração. Tem o Hayter, que deu toda uma inovada na técnica da gravura em metal, e tem os brasileiros, todos maravilhosos".
Depoimento de Renina Katz.
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KÄTHE KOLLWITZ

"As Mães" - 1922/23
Xilografia s/ papel

Ainda sobre as bienais, é preciso somar na conta dos benefícios o fato de elas terem provocado a criação de seções especializadas em artes plásticas nos jornais. Além disso, de terem promovido o surgimento de galerias de arte e marchands. Mas na soma dos malefícios, as bienais acabaram sendo o pivô da extinção do Museu de Arte Moderna patrocinado por Ciccillo.

Depoimento de Wolfgang Pfeiffer, ex-diretor do MAC/USP . "A bienal cresceu, e assim a filha do museu ficou muito maior do que o próprio museu. E o Matarazzo também cansou e pensou em fazer a Fundação Bienal de um lado, desvinculado do museu, e doar o acervo do museu para a universidade".

A doação do acervo do Museu de Arte Moderna à USP deu-se por uma decisão unilateral de Ciccillo Matarazzo, ainda que ele tivesse o apoio de alguns membros do conselho. A medida trouxe alguns ressentimentos, mas Ciccillo acreditava que assim livraria o museu da crônica falta de recursos em que estava mergulhado. Amigo do reitor da universidade, Ulhôa Cintra, recebeu dele a promessa de que o acervo ganharia uma sede própria no campus da Cidade Universitária.

Depoimento de Ana Mae Barbosa, ex-diretora do MAC/USP . "A criação do MAC representou para a USP o primeiro real contato com as artes, foi a primeira manifestação de arte dentro da universidade. Só depois foi criado o ensino da arte".

. "A importância do MAC reside na sua coleção, que é um patrimônio universal. O MAC não pode ficar restrito a ser um museu da universidade no sentido negativo do termo, que se conforma em ter obras-primas e em construir seu prestígio cedendo-as, vez por outra, para exposições importantes no exterior".
Depoimento de Aracy Amaral.

A polêmica continua acompanhando o museu. Agora não mais por "abrir as portas do impossível", como queriam os futuristas, ou por "levantar o diabo na água morta", como pretendia Ciccillo. Desde que passou à USP, não se conseguiu que o acervo fosse acomodado em uma única sede. Além disso, desvinculado da bienal e dependendo de doações para se atualizar, ele caminha para ser um museu que fala do passado. As últimas grandes doações resultaram do espólio de Yolanda Mohaly, composto de 26 obras, e da coleção de Theon Spanudis, num total de 364 obras, em que se destaca o construtivismo das gerações pós-1960.

. "Há trinta anos o MAC pertence à universidade e até hoje a universidade não prevê em seu orçamento um item específico para a aquisição de obras. Ora, um museu de arte contemporânea que não adquire permanentemente obras da atualidade arrisca-se a ser um museu datado".
Depoimento de Aracy Amaral.

Depoimento de Lisbeth Rebollo Gonçalves, diretora do MAC/USP . "A questão orçamentária da USP é um problema para todas as unidades. O MAC, nesse sentido, não é nem desprestigiado nem privilegiado. Nós temos um orçamento pequeno, que nos permite manter viva a atividade do museu. Nós dependemos da sociedade civil, precisamos do apoio dos empresários, dos mecenas, do apoio de associações filantrópicas. Nós vamos ter de encontrar esse apoio fora".

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HENRY MOORE

"Figura reciclada em duas peças:
pontos" - 1969/70
Bronze
A difícil batalha para manter vivo o acervo coleciona bons exemplos. O prof. Zanini valeu-se de suas relações internacionais para fazer a troca de uma cópia do gesso original de Umberto Boccioni por uma escultura de Henry Moore. Mesmo assim, grande parte das obras incorporadas foi comprada.

Durante sua gestão, a arte-educadora Ana Mae Barbosa descobriu uma maneira de preencher lacunas da produção contemporânea.

. "Então um colecionador foi extremamente generoso e colocou no museu, em comodato, 50 obras de artistas brasileiros contemporâneos. Em relação à área internacional é difícil, porque está cada vez mais caro".
Depoimento de Ana Mae Barbosa.

. "Eu tenho dúvidas sobre a pertinência do gesto de Ciccillo Matarazzo ao doar a coleção para a universidade. Eu compreendo que ele fez esse gesto em função das dificuldades de levar em frente o museu e a bienal. Mas eu considero que o MAC tem de ser um museu aberto a tudo o que de mais novo se apresenta. A universidade se mostrou insensível e essa expectativa que existia no começo dos anos 60 não existe mais no começo dos anos 90".
Depoimento de Aracy Amaral.


Década de 60. Empurrada pelos ventos modernistas, ajudada pela bússola das bienais, a viagem das vanguardas encontrou seu continente. Jovens artistas desembarcaram no edifício do Parque do Ibirapuera e lá instalaram a arte contemporânea brasileira.

. "O mundo da arte moderna é o mundo que é feito para acabar dentro desse suporte, do pano esticado e pregado num chassi. O contemporâneo traz outros recursos que não a tela esticada. A instalação é uma obra de arte contemporânea por excelência, ela avança sobre o espectador, ela sai do muro. O público que participa da arte contemporânea é alguém que está vivo dentro da arte".
Depoimento de Nélson Aguilar.

. "Há uma fusão entre linguagens, há como que um desmantelamento dessa idéia de que existem linguagens específicas, particulares."
Depoimento de Agnaldo Farias.

. "E aí, através dessa idéia, desse conceito, aparece, o vídeo, o xerox, aparece mesmo o disco, como suporte do som. Aparece a utilização da fotografia no campo da arte. E aí você incorpora artistas plásticos, o pessoal da poesia, o pessoal da literatura também... O pessoal de outras linguagens."
Depoimento de Júlio Plaza.

Ao se buscar a genealogia dos movimentos, o concretismo se revela como filho caçula do modernismo e pai da arte conceitual. Formas autônomas, cores, relações de fundo e figura brincam com o olho do espectador, com suas idéias. É o abstracionismo europeu dos anos 20, aclimatado no Brasil dos anos 50. O MAC guarda obras desse tempo.

. "No rigor dessas construções, especialmente na primeira fase da arte concreta, havia um intuito de fugir a uma subjetivização muito grande e, certamente, era uma arte que parecia menos expressiva à primeira vista. Mas eu acredito que no próprio jogo dessas formas puras poderia haver uma sensibilização muito grande".
Depoimento de Augusto de Campos.

O movimento concretista foi liderado por um grupo paulista chamado Ruptura. Congregava, entre outros, Waldemar Cordeiro, Maurício Nogueira Lima, Geraldo de Barros, Sacilotto e os irmãos Campos.

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WALDEMAR CORDEIRO

"Movimento" - 1951
Têmpera s/ tela
. "O Cordeiro, além de ser um dos primeiros pintores brasileiros a trabalhar nessa área, foi um teórico também. Um polemista extraordinário. Ele dizia que na arte concreta estavam os pressupostos formais da arte de computador".
Depoimento de Augusto de Campos.

Década de 70. A arte que já havia discutido as formas, as cores, a maneira de o olho enxergar o mundo e o uso do pincel, recorreu novamente à tecnologia. Não à maneira dos futuristas, espectadores do progresso. Os anos 70 foram radicais. A arte e a tecnologia se confundiam num espetáculo único.

Depoimento de Cacilda Teixeira da Costa, historiadora da arte . "A experimentação entrou desde o início, era a orientação do professor Walter Zanini., No que se refere à videoarte, era uma coisa absolutamente de ponta no Brasil."

. "Eu acho que há múltiplos caminhos, infinitos caminhos com essa abertura dos multimeios. Há uma dominância desse fenômeno trazido pela eletroeletrônica, a questão do virtual, dos espaços virtuais, da computação gráfica, a incorporação da história nessas memórias eletrônicas. Há todo um processo de criação que se está vivenciando e elaborando dia a dia".
Depoimento de Júlio Plaza.

. "Acho que por muito tempo nós acreditamos que o futuro seria a arte tecnológica. Eu não sei fazer futurologia. Eu acredito que o caminho é por simetria. Se a nossa vida é assim, não vejo como a arte também não seja impregnada de tecnologia."
Depoimento de Cacilda Teixeira da Costa.

Quase simultânea à criação do Ruptura, ainda nos anos 50, artistas cariocas formaram o Grupo Frente, que viria a ser conhecido como neoconcreto. Ivan Serpa, Ligia Clark e Hélio Oiticica, entre outros, deram uma interpretação menos fria às formas puras de seus colegas paulistas.

. "É interessante a contribuição particularmente dos neoconcretos, porque eles introduzem nesse debate a afetividade, introduzem um certo calor ou questões mais ligadas à sensibilidade".
Depoimento de Agnaldo Farias.

O resgate da emoção promovido pelos neoconcretos ainda foi tímido. No início de 1962, Hélio Oiticica radicalizou e pregou a anti-arte, a exacerbação das emoções. Happenings, instalações, arte corporal e arte da paisagem... todos deslocavam a discussão para o território dos conceitos. A polêmica habita a própria obra, anunciando a negação do objeto de arte e, como decorrência, a negação do mercado de arte.

. "Eu promovi um happening no João Sebastião Bar que deu um rebuliço tremendo, porque eu estava fazendo uma exposição num bar. Eu tinha mandado os meus trabalhos para a Bienal e tinham sido recusados, tentei expor aqui e havia muita resistência. E eu fui taxado de artista pornográfico".
Depoimento de Wesley Duke Lee.

. "Houve duas reações. Houve um repúdio de pensar que isso é uma espécie de parque de diversões, alguma coisa que não é nem escultura nem cenografia. Fica num entremeio a instalação. A outra reação acredito que foi positiva. Houve sempre a questão de perguntar: ‘por que isso está acontecendo?’; ´o que o autor dessa obra está querendo me passar?’; ‘o que é o autor dessa obra?’..."
Depoimento de Nélson Aguilar.

. "Essa alfabetização visual é fundamental. Nós sistematizamos uma metodologia que foi apelidada no museu como ‘metodologia triangular’, o ensino da arte através de três componentes, três disciplinas juntas: o fazer artístico, a leitura da obra de arte e a informação histórica."
Depoimento de Ana Mae Barbosa.

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TARSILA DO AMARAL

"Estrada de Ferro Central do Brasil" - 1924
Óleo s/ tela
"- Quem é que vem?
- Vem vindo um trem
Maria Fumaça passa passa passa".
Raul Bopp

A magia de um trem nos versos de Raul Bopp e no colorido primitivo de Tarsila do Amaral chama para o embarque no bê-á-bá modernista.

. "Os programas de educação são fundamentais para isso, para a entrada de todas as classes sociais no museu. Imagine a gama da população que fica afastada do usufruto da arte".
Depoimento de Ana Mae Barbosa.

Para tentar romper a distância entre público e museu, o MAC/USP organiza ateliês e cursos. Algumas atividades congregam segmentos específicos: crianças, pessoas da terceira idade, excepcionais. Mas uma pesquisa do MAC mostrou uma freqüência predominante de artistas.

. "O MAC é um espaço do artista por excelência. Não só do artista visitando para reler a obra, mas do artista presente com ateliês dentro desse museu".
Depoimento de Lisbeth Rebollo Gonçalves.